14 de Janeiro

Pier

Dia 14 de janeiro é sempre um dia de triste lembrança para mim. Até hoje, mesmo depois de uma década, não consigo esquecer e muito menos deixar de sentir certa tristeza quando deveria sentir alegria.

Sei que é algo bem pessoal, mas como te a ver com depressão, achei bacana dividir com este site que, aliás, estou em falta.

Sou diabético, tipo 1, mas descobri isso da pior maneira possível. Até então, era tratado pelo meu médico “bam, bam, bam” como um doente do tipo 2. Ou seja, tomava uma medicação errada e que não servia para nada.

Naquela madrugada, passei muito mal e logo cedo liguei para ele que me disse o seguinte:

– Calma, Marcelo, você está fraco desse jeito porque vomitou a noite toda, está desidratado. Deve ter comido algo estragado ou está com uma virose daquelas… mande sua empregada comprar umas garrafas de Gatorade que você logo estará melhor.

Virose é a muleta predileta dos médicos incompetentes. Eu devia ter processado o sujeito, mas não é minha praia ganhar dinheiro dessa maneira, portanto preferia apenas desejar que ele queime no inferno.

Liguei então para minha esposa que estava passando uns dias em nossa casa de praia e ela se preocupou com minha voz embolada. Minutos depois eu estava em coma. Dias depois, voltei à vida e descobri que minha mulher havia retornado naquele mesmo instante e salvo minha vida.

Isso posto, sigamos em frente olhando um pouquinho para trás: Há meses eu estava sofrendo de uma depressão daquelas que… deixam a gente fora de órbita, ainda que, como sempre fui reativo, saía todos os dias para trabalhar e tentar levar uma vida normal. Não, caros leitores, eu não me tratava porque era contra tomar remédios e os médicos com quem havia falado sobre aquilo, ou melhor, tentado um tratamento, só me recomendavam remédios, daqueles para ficar acordado durante o dia e daqueles para dormir à noite.

Erradamente não busquei ajuda terapêutica, apenas psiquiátrica. Enfim, coisas de uma mente perturbada que, por ser autodidata, acha que pode resolver tudo sozinho.

Há meses a tristeza vinha se acumulando e passar da tristeza profunda à depressão é quase tão fácil quanto atravessar uma rua de pouco movimento. Foi o que aconteceu comigo.

Naquela época eu já havia conseguido realizar tudo o que queria. Estava com 44 anos, acabara de lançar meu primeiro livro, já tinha um filho maravilhoso e também já havia plantado minha árvore. Brincadeiras à parte, sei que vocês me entenderam: Eu enfiei na cabeça que não havia mais nada a fazer nesse mundo, portanto, viver para quê?

Com essas inquietações me atormentando 24 horas por dia, não foi difícil atravessar a rua e cair naquele estado deplorável.

Querem saber a verdade? Lamentei não ter morrido quando saí coma. Na última vez em que havia ido ao banheiro naquela madrugada terrível, me olhei no espelho e disse a mim mesmo: Estou morrendo e não estou com nenhum medo disso.

Dias depois, conversando com minha mulher eu falei:

– Sei que eu deveria te agradecer por ter salvo minha vida, mas sinceramente, não sei até agora se te agradeço ou te culpo por isso.

Por mais agressiva que essa frase possa parecer, ela entendeu completamente meu ponto de vista, afinal, essa doença maldita chamada depressão era quem estava no comando.

É uma doença maldita mesmo. E em minha singela opinião, incurável. Acho que a gente aprende a lidar com ela, aprende a aprisioná-la em algum quartinho de nossa mente, mas não a elimina. Mais ou menos como no alcoolismo onde não se pode dar o primeiro gole, na depressão não se pode permitir a primeira recaída.

Essa doença é para mim o grande mal da humanidade. Ela tira a gente de combate e é justamente o que temos que fazer, combatê-la. Seja com terapia, seja com remédios, seja até consigo mesmo. Não se pode baixar a guarda um segundo sequer, pois ela renasce das cinzas. É um câncer mental.

Felizmente isso tudo ficou para trás e hoje consigo, depois de ter realizado tantas coisas nesses anos que se passaram, saber que sou muito agradecido. Mas a guarda continua elevada, em estado de alerta.

Não se pode vacilar nem um minuto, senão você dá o “primeiro gole” e… ela volta com tudo.

MM

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Publicado em Ego. 2 Comments »

2 Respostas to “14 de Janeiro”

  1. Anônimo Says:

    Bom ler um texto seu por aqui depois de 7 meses de ausência. Para uma leitora que o acompanha já faz muito tempo, não foi uma tarefa nada fácil. rsrsrs
    Volte sempre!

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  2. Anônimo Says:

    Feliz por você ter sobrevivido e por compartir a sua experiência com uma infinidade de outros pessoas que muitas vezes nem se dão conta que precisam de atenção, compreensão e ajuda.

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