Catarse

CATARSE

Escrever sobre esse tema tem um motivo especial: Uma grande amiga. A mais importante e querida amiga que alguém pode ter.

Catarse tem alguns significados e todos eles muito pesados, às vezes até complexos, a ponto de não serem bem compreendidos por seres mortais comuns. Não pensem que estou diminuindo os seres humanos, não é nada disso. Falei “seres mortais comuns” porque todos vocês sabem muito bem que a maioria não dá a menor bola para os sentimentos mais profundos. Levam a vida de modo simplista e, por que não dizer, deixam a vida levá-los ao melhor estilo Zeca Pagodinho. Um tremendo erro.

Segundo Aristóteles, Catarse é uma descarga emocional provocada por um drama que leva à purificação da alma. Segundo a Psicologia, Catarse é um ato de liberdade de alguma ação opressora. Para a Psicanálise é um processo para trazer à consciência as emoções reprimidas no seu próprio inconsciente para que ele seja capaz de se libertar das consequências ou problemas causados pelos mesmos. E por aí vai…

De qualquer modo, o processo dói. E dói muito. Por outro lado, ele traz a luz ao que estava escuro, escondido, seja no consciente ou inconsciente. Sim, nós escondemos coisas. Não só dos outros, mas de nós mesmos.

A questão aí é uma só: Quando devemos procurar esse “material” e purificar nossas almas, ou ainda, libertar-nos dessa opressão que nos impusemos ou aceitamos? Essa é uma questão importante, pois há relatos em que a pessoa não procura, apenas encontra.

Uma terapeuta me disse certa vez que o resultado é o mesmo. Naquela época, há uns 6 ou 7 anos atrás, eu estava procurando algo nesse sentido e ela me dizia que a descarga emocional, ou a Catarse, apareceria quando eu menos esperasse, que não precisava ficar procurando. Teimoso que sou, continuei minha busca lá nos porões da minha mente até encontrar o que me faria, definitivamente, passar por esse processo. Foi duro. Que ninguém nos “ouça”, foi quase um processo sem volta. Talvez quem já tenha passado por isso saiba do que estou falando.

Alguém aí pode ler esse texto e se perguntar: Pra que passar por isso? Bem, se você está se fazendo essa pergunta, se encaixa naqueles seres “Zeca Pagodinho”. Mas eu afirmo que não há nada nesse mundo que faça – ou faria – você crescer tanto como uma velha e boa Catarse. Não ouse pensar que você não tem materiais reprimidos em seu porão. Não se atreva a pensar que este texto não se refere a você.

Sabe aquele ditado… Você pode enganar quase todo mundo quase todo tempo, mas não pode enganar todo mundo todo tempo. Pois é, você pode até se enganar por algum tempo, mas…

Perceber o que é, foi ou será uma Catarse na sua vida não é tão fácil. Admiti-la é ainda mais difícil. Mas é preciso mais do que percepção quando você está em uma encruzilhada na sua vida, ou melhor, na sua mente, no seu íntimo: É preciso coragem para enfrentar. É preciso muita coragem para buscar esse processo como eu fiz, como minha amiga fez.

Se eu fosse fazer um comentário daqueles que costumo fazer normalmente, onde reduzo uma questão ou um processo a apenas uma simples expressão, diria que é uma busca pelo sofrimento. Pelo menos foi o que me pareceu quando passei por isso. Eu buscava incansavelmente algo que sabia que me faria sofrer. No entanto, não sou acomodado a ponto de parar a busca no meio do sofrimento. Eu sabia que precisava sim sofrer, admitir minhas mais esquisitas entranhas, trazer à consciência as minhas mais escondidas angústias.

Ainda sobre os significados da Catarse, todas elas referem-se a libertação do que é estranho ao sujeito.

Isso, caros leitores, diz muito. Vivemos em um mundo de aparência e muitas vezes, aparentamos o que não somos para sermos aceitos pelos outros. Só que nosso “íntimo” não aceita nada além da verdade. Quando falo sobre a Terapia do Espelho, que não conseguimos esconder de nós mesmos a verdade diante de nossa imagem, é isso que quero dizer.

Passar por essa experiência traz à tona a verdade. Nem sempre gostamos dela, nem sempre gostamos do que somos, mas essa libertação é necessária para que continuemos em frente. Caso necessário, apare arestas. Tenha bom senso quando for conviver com a sociedade. Sobretudo, tenha coragem de assumir quem você é.

Já disse mil vezes e repito: Meu grande sonho sempre foi que as pessoas me amassem ou me odiassem pelos mesmos motivos, pois só assim eu teria certeza de que estou sendo Eu mesmo, um ser livre de qualquer opressão imposta por alguém ou por mim mesmo.

Minha amiga levou longos dois anos em sua busca pela libertação. Agora ela conseguiu. Ela precisava “colocar a cabeça para fora” e respirar por si mesma. Isso só faz dela uma pessoa ainda melhor aos meus olhos. Ainda mais incrível aos olhos dos outros. Ainda mais verdadeira aos seus próprios olhos.

MM

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Publicado em Ego. 3 Comments »

3 Respostas to “Catarse”

  1. Marcia Varanda Says:

    Não existe nada melhor do que respirar! Se reconhecer no espelho! E ter amigos verdadeiros, que vibram na mesma frequência!!!! Adorei…simplesmente adorei!Pra você: “(…) Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu… Sabe por que? Porque ser seu amigo já é um pedaço dele.” – Ser Seu Amigo, Vinicius de Moraes

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  2. Daniela Says:

    Putz, to quase sem palavras… lindo, sensacional.

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  3. Luciana Says:

    Esse texto foi um dos seus com que mais me identifiquei, pois já passei por esse processo sem saber que passaria, descobri coisas e mesmo assim parece que ainda tem muito mais, eu sofro ainda , fiquei na dúvida e ao mesmo tempo com um questionamento, porque me sinto assim? Será que tem muitas coisas no meu inconsciente que eu não consegui e não quero ver e nenhuma terapeuta consegue me ajudar, pois eu sempre me dou alta?Bem eu voltei a terapia, e sempre faço uma diferente…enfim, será que existe a cura pra meu caso? Claro, vc não é vidente, mas será que vc tem alguma idéia do que seja isso, já que vc passou e entende tão bem esse termo Catarse?Será que descobrir coisas que aconteceram na infância é o mesmo que descobrir coisas de nós mesmos de nossa personalidade , de quem somos? Bem a minha própria resposta é não, não é o mesmo . Daí, com seu texto, eu me pergunto e acho que teria que passar por esse processo de novo, pois tem muito mais coisas aqui dentro sim, queria sua opinião.
    Um abraço.
    L.

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