Reconhecimento

Todo mundo sabe que sou adepto – e até indico aos meus clientes – da Terapia do Espelho. Nada muito científico, mas chamo de Terapia do Espelho aquela conversa franca que devemos ter com nossa imagem refletida ali. É algo que parece simples, mas não é. Pelo contrário, se você experimentar vai perceber que pode ser bem dolorido. Talvez seja essa a intenção.

Faço isso desde o dia em que completei 18 anos. Naquela manhã de 17 de novembro de 1978, acordei e, diante do espelho do banheiro, fiz a seguinte pergunta ao Marcelo que surgiu à minha frente:

– E então, o que você quer fazer com sua vida?

Foi algo natural, nunca tinha usado o espelho para tal coisa, afinal, como ainda tinha cabelos, o espelho era usado apenas para penteá-los e fazer a barba, ainda que meio rala na época… Mas senti um impulso, afinal de contas, 18 anos é um símbolo para os homens, é a maioridade ou, no mínimo, a possibilidade de tirar carta de motorista. Gosto de símbolos, gosto de simbolismos e passei a vida toda tentando detectá-los e usá-los.

Naquela época eu me conhecia muito pouco. Entretanto, a partir daquele momento eu passei a ter uma identificação comigo mesmo que não via – e para ser bem sincero, ainda não vejo – nas pessoas que conhecia. Meus amigos não se percebiam como realmente eram em sua essência. Minha família muito menos. Em suma, passei a me sentir um peixe fora d’água.

Quando você se esforça para se conhecer ou reconhecer quem você de fato é, você nota que é único. Óbvio? Sim, mas quem é que enxerga o óbvio? A explicação para não enxergar “esse” óbvio é simples. Veja quantas vezes as pessoas dão a justificativa para seus atos usando as seguintes expressões: Não sou o único a fazer isso ou aquilo. Não sou só eu que tenho esse ou aquele problema. Todo mundo faz isso, todo mundo usa aquilo, etc, etc, etc.

A gente tem mesmo essa tendência de se colocar no meio dos outros. Mas somos seres únicos e damos significados próprios a tudo. Isso é o que nos difere. O que quero dizer é que é necessário que nos conheçamos profundamente para perceber com exatidão o que cada coisa significa para nós. Poucos fazem isso.

A Terapia do Espelho ajudou a me conhecer e a reconhecer minhas falhas, meus defeitos, minhas condutas, postura, qualidades, etc. Em suma, passei a vida toda me aproximando daquela pessoa refletida no espelho. Até que… sabe-se lá por que (ainda tento descobrir) me afastei. Sem mais nem menos, aquela pessoa “do outro lado” começou a se tornar um estranho. Às vezes “ele” voltava, às vezes se afastava. Jamais abri mão de conversar comigo diante do espelho e isso era algo absurdamente “incomodativo”. A cada papo eu sentia que aquele estranho do outro lado não mais se importava com meus desabafos e angústias.

Sempre me achei bipolar, mas aquilo era demais, estava passando dos limites. Alguns podem até dizer que “isso acontece com todo mundo em determinado momento da vida”, mas eu não faço parte dos que justificam as coisas com essa desculpinha que nem para consolo serve. Essa frase entre aspas eu ouvi da minha terapeuta há alguns anos atrás. Ou seja, até quem era pago para me ajudar tentava inutilmente me colocar no mesmo saco que o resto da humanidade. Eu odiei, é claro. E briguei com ela, óbvio.

Durante algum tempo – leia-se anos – eu me senti afastado de mim mesmo. Pior, não sabia como resgatar aquela velha e boa amizade. Talvez a mais sincera amizade que já tive na vida, afinal, é impossivel enganar a si mesmo. E olha que tentamos, viu? A ferramenta mais usada para isso é aquele conhecido mecanismo de defesa do Ego, a negação.

O tempo foi passando e aos poucos fui compreendendo que esse afastamento nada mais era do que medo de responder novamente aquela pergunta que fiz na primeira vez. Nós somos seres mutantes, nossas ideias vão de um polo a outro em questão de segundos, nossos desejos são alterados a todo instante… e o que eu erradamente queria era apenas ser a mesma pessoa de sempre. Isso é impossivel.

Foi um longo processo até perceber que a mudança constante é a maior das nossas rotinas. Nem todos se são conta desse aparente paradoxo, mas aceitar essa verdade absoluta ajudou muito.

Nossa essência não muda, o que muda é a forma como a enxergamos e conduzimos nossas vidas. A experiência de vida serve para isso, para desviar dos obstáculos. Lembrando que muitas dessas pedras de nossos caminhos somos nós mesmos que jogamos. Aquela coisa de boicotar a si mesmo.

Hoje quando acordei fiz a mesma pergunta. A resposta foi completamente diferente. E tenho quase certeza que a graça da vida – se é que ela tem alguma graça – será sempre assim, diferente, mesmo você sendo a mesma pessoa de sempre.

MM

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