Passado Presente

Por que será que as pessoas não conseguem se libertar do passado? Ainda mais grave do que isso, não conseguem deixar de reviver situações que não foram boas. Talvez nem seja por quê a indagação, mas pra que…

Pra que provocar o que morreu ou já passou, coisas que sabemos o resultado? Não quero dizer novamente que somos seres burros porque isso deu pano para manga num texto anterior. Entretanto, é difícil encontrar outra explicação que não esta.

Se alguma coisa em nosso passado provocou um estrago – muitas vezes irreversível, mesmo que apenas lá no fundo de nossas mentes – para que repeti-lo? Pois é, como disse, não entendo e jamais vou entender porque não vejo um raciocínio lógico que explique esse tipo de atitude.

Mas é assim que somos e agimos, temos uma dificuldade absurda de finalizar as coisas. Sempre que podemos, damos um jeitinho de “voltar à cena do crime”. Sim, disse crime de forma proposital, afinal, estou falando sobre coisas ruins, relações ruins, experiências ruins que insistimos em perpetuar. Vale até para lembranças…

Mexer com o passado não é tarefa fácil. Creio que em processos terapêuticos não devem ser raras as vezes em que esse assunto leve os clientes/pacientes às lágrimas. Mas lá na terapia, tudo bem. Lá podemos mexer à vontade nessas lembranças. Lá estamos sendo assistidos e cuidados por um profissional que – pelo menos em teoria – saberá como conduzir as coisas.

Mas por que é que fora do ambiente terapêutico – infelizmente não é todo mundo que pede ajuda – insistimos em mexer, reviver, lembrar, como disse acima, provocar o passado? Aonde esse tipo de coisa vai nos levar a não ser a mais sofrimento?

Falta do que fazer não deve ser, pois todo mundo tem a obrigação de cuidar do presente e preparar o futuro. Deve ser mais uma daquelas perguntas sem respostas.

Observo muito a atitude das pessoas, claro, as minhas também. Obviamente não tenho nada a ver com a vida dos outros e por essa razão só falo sobre isso quando perguntado. Já com meus clientes, posso me meter. Não é difícil notar os momentos em que eles correm atrás do próprio rabo remoendo o passado. Nunca vi ninguém – nem cachorros – chegarem a algum lugar, alcançar um objetivo sequer correndo em círculos. Pior, quando pegam o rabo, mordem e se machucam. Isso vale para seres humanos também, somos sim seres completamente auto-destrutivos, por essa mesma razão é que tenho cada vez mais certeza de que essa tal inteligência não passa de uma invenção descabida.

O mundo está cheio de pessoas assim. Acho que escrevi sobre isso no meu segundo livro, se não me falha a memória, tem um texto lá sobre as pessoas terem medo da vitória, um absurdo eu sei, mas conheço muita gente que morre de medo de “dar certo”. Em vez disso, preferem repetir as fórmulas que as levaram ao buraco em que se encontram. E cá entre nós, que ninguém nos ouça, muitas, nem fazem questão de tentar sair…

Muito triste constatar esse absurdo. Por outro lado, existe uma tendência da sociedade de proteger os coitadinhos. Ninguém assume que é legal, que é digno ser alvo do sentimento de pena, mas na prática… a teoria é outra: Conheço uma porção de gente que AMA que tenham pena delas.

E a sociedade cai como um patinho, tentam proteger e nem de longe, nem em um Universo paralelo, proteção tem a ver com ajuda. Invariavelmente essas pessoas tem o passado presente em suas vidas. E são tão injustas porque o passado não é composto apenas de coisas ruins, claro que não. Todo mundo tem passado e nele estão grandes feitos, grandes conquistas, mas quem é que dá bola para o bom? Pouca gente… O que vale mesmo é remoer e perpetuar o que faz mal.

Ao contrário do que se pensa – que viemos ao mundo presos a um cordão umbilical – tenho certeza de que seres humanos só se libertam daquele primeiro cordão porque um médico o corta. Os outros cordões que vamos nos prendendo durante a vida não são cortados como deveriam.

A resposta é simples, a tesoura está em nossas mãos e quem é que tem a coragem de se libertar? Poucos, muito poucos… e mesmo assim, esses poucos não se libertam de todos, muito menos do que os prende ao passado que faz mal.

MM

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Publicado em Ego. 6 Comments »

6 Respostas to “Passado Presente”

  1. imara Says:

    É o medo do novo… medo de dar certo e a segurança da zona de conforto. !

    Pra mim foi perfeito ! bj e tks

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  2. Gisela Says:

    Oi MM,
    Adorei seu texto. Mais uma vez é um chacoalhão, mas eu adorei.
    Beijo

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  3. Anônimo Says:

    Olá, Marcelo, meu nome é Ana Cristina e fui recomendada pela minha terapeuta a ler seus textos.
    Será que um dia eu conseguirei me libertar do passado que me assombra?
    Trabalho isso em terapia há anos e não consigo. É impressionante alguém escrever sobre isto como se estivesse escrevendo para mim e nem mesmo o conheço. É desta identificação que ela se refere quando está atendendo nosso grupo. Você é muito bem recomendado e suas publicações já viraram objeto de discussão em diversas sessões.
    Leio seu blog a pouco tempo e este texto especificamente tocou profundamente minha alma.
    Creio que deva comprar uma tesoura, hehehehe.
    Parabéns e obrigada ao mesmo tempo. Vou passar hora refletindo sobre o tema.
    Abraços e sucesso sempre!
    Ana

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  4. Yolanda Says:

    Você, Marcelo, é de uma sensibilidade ímpar. Nos atinge em cheio com suas reflexões.
    Este texto assim como tantos outos é irretocável não só pela forma como escreve como pelo conteúdo nele inserido.

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  5. aiandra Says:

    Novamente, e como sempre, meus aplausos….

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  6. Teresa Cristina Says:

    Caro Marcelo,
    Acabei de ler seu novo texto via e-mail e vim para o site deixar um comentario.
    Seu texto caiu como uma luva, ou melhor dizendo, como um martelo, direto na minha cabeca…
    Vivendo uma condicao semelhante, ou seja, de procurar um passado que nao fez bem no meio de um processo de mudanca.
    Sera’ que nao procuramos certas condicoes ou pessoas de nosso passado em busca de apoio, mais como “bengala” do que qualquer outra coisa, porque procuramos situacoes conhecidas, familiares?
    Sera’ que, apesar de tudo, nos sentimos confortaveis com este passado e procuramos feedback, aprovacao, para prosseguirmos?
    Eu sei, nao faz sentido visto que este passado em particular nos causou dor e sofrimento.
    Por agora, continuo me questionando.
    Na minha opiniao, um bom comeco.
    Um abraco e obrigada pelo post.
    Teresa Cristina

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