Esperança

Algumas coisas dessa vida são inexplicáveis. Claro, estou falando do mundo dos sentimentos humanos. São tantos… fora aqueles que sequer foram “catalogados”. Mas nem quero me ater nesses, prefiro os conhecidos e famosos: Medo, esperança, desprezo, amor…

Dia desses recebi um e-mail de uma pessoa que tenho pouco contato, mas que considero uma amiga. É uma mulher que está passando por uma fase complicada, diria que perto daquela linha tênue que separa a vida da morte. Sim, a gente pode deixar de viver mesmo ainda estando vivo. Como sei que escrevo para pessoas inteligentes e sensíveis, tenho certeza de que muitos já passaram por momentos parecidos com esse, onde nos perdemos em pensamentos contaminados pela realidade que, muitas vezes, nada tem a ver com nossos sonhos.

Falar de amor todo mundo fala, não é? E quando ouvimos alguém falar de amor, logo pensamos numa companhia para as chamadas “todas as horas”. Mas será que amor é só isso? E o amor da família? Pois é, todo mundo sabe o que penso sobre isso. Em minha opinião, família é sim o “berço de tudo”. Dos problemas, principalmente. Aliás, não consigo ver outra coisa nas famílias do que o berço dos maiores problemas da humanidade. Não entendo os que pregam que família é tudo – de bom. Vejo que o amor aos filhos se perde no caminho da vida.

Talvez nem seja o amor o que se perde, mas a demonstração do afeto. Claro, exageros à parte, não é todo mundo que deixa de demonstrar afeto, amor, etc. Mas a maioria com toda certeza. É o caso dessa minha amiga: Ela é puro sentimento e a família não demonstra nada de volta. Óbvio que sentem algo por ela, pois é uma pessoa tão doce que é impossivel alguém normal não amá-la. Além de eles não demonstrarem nada, ela se sente desprotegida e desprezada.

Pode parecer que seja exagero dela. Sua visão turva – momentânea – pode impedi-la de ver a realidade. Mas a verdade é que quando estamos no meio de uma tormenta, temos a tendência a enxergar apenas catástrofes. Além dessa solidão familiar, ela sente outros tipos de desamparo. Por conta de sua doença grave – acentuada depressão – ela foi abandonada por amigos, primos, tios, namorados, etc. Oras bolas, onde está o amor? Ele não é maior do que tudo? Ou será que só amamos quem está “de bem com a vida”?

Não é uma verdade absoluta, amamos a todo mundo que amamos, mas o fato é que damos mais atenção a quem está de bem com a vida. Uma coisa estúpida, afinal, quem está de bem com a vida não precisa de atenção. Quem está mal fica em segundo plano.

O que tudo isso quer dizer é que no final das contas, as pessoas que se sentem só acabam se abraçando em dois sentimentos antagônicos: Medo e esperança.

Medo é bom, em determinados momentos. É ele que limita certas ações e isso é muito importante. Só que o medo também nos imobiliza e isso é péssimo em qualquer circunstância. Quem se sente “num mundo sem ninguém” sofre demais por causa do medo que essa situação se perpetue.

A esperança é um sentimento melhor, dizem por aí. Não sei se acredito nisso cegamente, mas talvez esse seja um assunto para outro dia, outro texto, outra reflexão.

Num caso grave como o dessa amiga, é o sentimento de esperança que deve ser perpetuado, e por que não dizer, protegido. O que não é nada fácil. Sei bem o que estou falando, pois já passei por momentos onde o que havia sobrado era apenas e tão somente a esperança… Mas eu fiz mais do que isso quando constatei – e aceitei – que a esperança era o que havia restado.

Eu a fortaleci dando valor – diria que um valor absurdo, completamente superdimensionado – aos pequenos passos, às pequenas conquistas. Um dia de cada vez. De cada pequena vitória, eu fazia uma grande conquista. Sem ajuda terapêutica, sem remédios, sem Deus, sem nada me ajudando. Era o meu momento, a minha doença. Eu tinha que me livrar daquilo sem ajuda alguma externa, pois entendia que só eu sabia o que estava passando, só eu sabia a dor que sentia.

Se eu pudesse dizer algo a essa amiga, diria a ela para lutar e valorizar cada pequena vitória, como sair de casa, por exemplo. Sei como ficam esses doentes, mas sei também o quanto é importante abrir os olhos e enxergar o mundo como ele realmente é, cheio de altos e baixos, cheio de momentos cor-de-rosa e também de momentos cinza. Hoje ela só enxerga o cinza, mas isso não justo com as outras cores…

Diria ainda para ela se agarrar a si mesma, porque entendo que ela é muito mais forte que o medo e, sobretudo, muito mais forte que a esperança.

MM

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Passado Presente

Por que será que as pessoas não conseguem se libertar do passado? Ainda mais grave do que isso, não conseguem deixar de reviver situações que não foram boas. Talvez nem seja por quê a indagação, mas pra que…

Pra que provocar o que morreu ou já passou, coisas que sabemos o resultado? Não quero dizer novamente que somos seres burros porque isso deu pano para manga num texto anterior. Entretanto, é difícil encontrar outra explicação que não esta.

Se alguma coisa em nosso passado provocou um estrago – muitas vezes irreversível, mesmo que apenas lá no fundo de nossas mentes – para que repeti-lo? Pois é, como disse, não entendo e jamais vou entender porque não vejo um raciocínio lógico que explique esse tipo de atitude.

Mas é assim que somos e agimos, temos uma dificuldade absurda de finalizar as coisas. Sempre que podemos, damos um jeitinho de “voltar à cena do crime”. Sim, disse crime de forma proposital, afinal, estou falando sobre coisas ruins, relações ruins, experiências ruins que insistimos em perpetuar. Vale até para lembranças…

Mexer com o passado não é tarefa fácil. Creio que em processos terapêuticos não devem ser raras as vezes em que esse assunto leve os clientes/pacientes às lágrimas. Mas lá na terapia, tudo bem. Lá podemos mexer à vontade nessas lembranças. Lá estamos sendo assistidos e cuidados por um profissional que – pelo menos em teoria – saberá como conduzir as coisas.

Mas por que é que fora do ambiente terapêutico – infelizmente não é todo mundo que pede ajuda – insistimos em mexer, reviver, lembrar, como disse acima, provocar o passado? Aonde esse tipo de coisa vai nos levar a não ser a mais sofrimento?

Falta do que fazer não deve ser, pois todo mundo tem a obrigação de cuidar do presente e preparar o futuro. Deve ser mais uma daquelas perguntas sem respostas.

Observo muito a atitude das pessoas, claro, as minhas também. Obviamente não tenho nada a ver com a vida dos outros e por essa razão só falo sobre isso quando perguntado. Já com meus clientes, posso me meter. Não é difícil notar os momentos em que eles correm atrás do próprio rabo remoendo o passado. Nunca vi ninguém – nem cachorros – chegarem a algum lugar, alcançar um objetivo sequer correndo em círculos. Pior, quando pegam o rabo, mordem e se machucam. Isso vale para seres humanos também, somos sim seres completamente auto-destrutivos, por essa mesma razão é que tenho cada vez mais certeza de que essa tal inteligência não passa de uma invenção descabida.

O mundo está cheio de pessoas assim. Acho que escrevi sobre isso no meu segundo livro, se não me falha a memória, tem um texto lá sobre as pessoas terem medo da vitória, um absurdo eu sei, mas conheço muita gente que morre de medo de “dar certo”. Em vez disso, preferem repetir as fórmulas que as levaram ao buraco em que se encontram. E cá entre nós, que ninguém nos ouça, muitas, nem fazem questão de tentar sair…

Muito triste constatar esse absurdo. Por outro lado, existe uma tendência da sociedade de proteger os coitadinhos. Ninguém assume que é legal, que é digno ser alvo do sentimento de pena, mas na prática… a teoria é outra: Conheço uma porção de gente que AMA que tenham pena delas.

E a sociedade cai como um patinho, tentam proteger e nem de longe, nem em um Universo paralelo, proteção tem a ver com ajuda. Invariavelmente essas pessoas tem o passado presente em suas vidas. E são tão injustas porque o passado não é composto apenas de coisas ruins, claro que não. Todo mundo tem passado e nele estão grandes feitos, grandes conquistas, mas quem é que dá bola para o bom? Pouca gente… O que vale mesmo é remoer e perpetuar o que faz mal.

Ao contrário do que se pensa – que viemos ao mundo presos a um cordão umbilical – tenho certeza de que seres humanos só se libertam daquele primeiro cordão porque um médico o corta. Os outros cordões que vamos nos prendendo durante a vida não são cortados como deveriam.

A resposta é simples, a tesoura está em nossas mãos e quem é que tem a coragem de se libertar? Poucos, muito poucos… e mesmo assim, esses poucos não se libertam de todos, muito menos do que os prende ao passado que faz mal.

MM

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