Porão

O que se guarda em um porão? Caixas apinhadas de papeis, objetos que não usamos, entulho, coisas quebradas, ferramentas enferrujadas…

Pois bem, é disso que quero falar hoje: Porão. Todo mundo tem um porão, que não seja físico, mas mental. Às vezes até temos vontade de fazer uma limpeza, mas falta coragem. Outras vezes temos coragem de mexer nessa bagunça, mas vem aquela sensação de que… um dia podemos precisar. Sim, por mais idiota que possa parecer, até as lembranças ruins podem ajudar em momentos críticos.

E não se trata de algo parecido com as lixeiras e as gavetas que temos que limpar de vez em quando, temas já debatidos por aqui, porão é diferente porque tem um significado mais pesado. Algo deixado no porão pode ter um efeito de “escondido”. Acho que a diferença é essa. Um porão mental é algo que só nós podemos acessar, algo que apenas nós temos a chave…

O que guardamos nos porões de nossas mentes são opiniões que não demos, são verdades sobre o que fizemos e que não queremos que ninguém mais saiba, são pensamentos e julgamentos que temos das pessoas de nosso convívio, mas que “é melhor não dizer”. Algumas atitudes que tivemos e que nos envergonhamos, ou ainda, atitudes que gostaríamos de ter, mas que moralmente não seriam aceitas por nós mesmos, pela sociedade ou pelas pessoas que nos cercam. Acho que até mesmo uma atitude nobre como o perdão, mas que nos arrependemos. Guarda-se mesmo de tudo num porão.

Diria que muitas vezes tem efeito de um sonho onde a moral não prevalece. Entretanto, pior que um sonho onde as manifestações do ID são livres e sem nosso controle, essas que comentei acima são conscientes. São desejos, atitudes, pensamentos, julgamentos e tantas outras coisas que é melhor mesmo mantermos lá no porão, trancadas a sete chaves. Além disso, são jogados ali certos segredos. E claro, o maior de todos: O segredo de quem realmente somos.

Há os que se intitulam transparentes, sinceros, verdadeiros, etc. Mas… mesmo estes têm seus segredos inconfessáveis. Todo mundo tem máscara. Uns usam menos, outros mais, mas todos têm.

Há umas duas ou três semanas, ainda que timidamente, resolvi começar a mexer no meu porão. E limpá-lo também. Peguei uma vassoura imaginária, uns dois paninhos de limpeza e comecei a fuçar para descobrir o que estava ali jogado. Na verdade, queria, além de eliminar certas coisas, entender os motivos daquela sujeira ter ido parar ali.

Lembranças, medos, incertezas, pecados, fantasmas, vergonha… restos mortais…

Pois é, o que começou com uma vassoura hoje precisa ser removido com guindaste. Nada mais natural que com 50 anos de vida haja muita coisa escondida num porão mental. Devia ter entrado ali antes. Para falar a verdade, me surpreendi com alguns detalhes que andei vendo nesse processo profundo e dolorido de autoconhecimento.

Mexer com a vida nem sempre é bom. Por outro lado, saber que existe entulho guardado que não faz mais nenhum sentido – e poder eliminá-lo – é libertador. Como todo bom porão que se preza, o meu também tem correntes…

Às vezes essas correntes estão ali te prendendo ou simplesmente fazendo peso extra. Te prendem ao que não mais importa se você realmente mergulhar na questão. Fazem peso daquela forma estúpida chamada culpa.

De qualquer forma, ainda existe muita coisa que não pode e nem deve ser mexida. Muito menos entendida. Afinal de contas, que graça teria a vida se a gente não tivesse nenhum segredo ou angústia pra guardar num porão só nosso.

Já imaginou que perigo se todo mundo soubesse aquilo que você já fez, quer fazer, pensa, gosta, odeia…

Me conforto – ou me engano – quando penso em deixar intocadas as lembranças, culpas, angústias que ainda não sei lidar. Penso que é só uma questão de tempo… Se estou me enganando ou não, o próprio tempo vai dizer. Mas por enquanto é melhor deixar essas questões não resolvidas no porão. Frio, sombrio, sujo ou mal cuidado, é, pelo menos por enquanto, o lugar certo pra se guardar muita coisa.

MM

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