Coletividade

Coletividade

Nós humanos somos mesmo bem esquisitos. A maioria tem problemas, normalmente relacionados a dinheiro ou falta dele, tempo ou falta dele, mas em grande parte mesmo os problemas são com outras pessoas, ou seja, problemas de convívio em sociedade. Claro que olhando apenas por esse prisma, a culpa é sempre “deles”, jamais nossa.

Mas a verdade é que temos consciência que viver em sociedade é um problema enorme. É um tal de brigar com vizinhos, família, no trânsito, enfim, ninguém se dá bem com ninguém, é uma intolerância danada. No entanto, a esquisitice que mencionei surge porque estamos o tempo todo correndo atrás de “comunidades”.

A busca pelo convívio em sociedade é incessante. Vivemos em prédios, temos casa em condomínios “fechados”, somos sócios de clubes, nos inscrevemos em academias e por aí vai.

De uns anos pra cá, surgiram ainda os Orkuts e Facebooks da vida, as chamadas comunidades virtuais. Essas são as melhores, dá a impressão até de certa evolução, afinal de contas, adicionamos gente sem precisar conviver com elas. O problema é que alguns usam como medidor oficial de amigos. Veja o exemplo do Twitter, quanto mais seguidores se tem, mais envaidecida ou inflada a pessoa fica. Detalhe, seguidores em sua esmagadora maioria absolutamente desconhecidos. Mas é assim mesmo, quanto mais melhor…

Essa necessidade de conviver com os outros que é realmente absurda. Como se nossos Egos funcionassem melhor quando somos queridos por muita gente, independente de as conhecermos ou não. Isso já deu o que falar nesse tal de Twitter, até competição entre os famosos… Entendo essa gente, eles vivem disso, não é? Mas e nós os mortais comuns? Precisamos de seguidores para inflar nossos egos por quê?

Esquecendo o Twitter e voltando às comunidades ou à vida em sociedade, por que será que temos essa necessidade de estar perto de gente que não conhecemos. Eu penso assim, se quero ter casa na praia, reúno uns amigos que também querem e construímos nós mesmos nosso próprio condomínio.

Seria bem mais fácil, ou menos difícil, mas na prática é impossível, ou melhor, quase impossível. Não fazemos isso e sim, procuramos conviver com gente que nada tem a ver conosco a não ser pelo gosto e possibilidade financeira de morar ou passar férias no mesmo local.

Tudo bem, a vida é assim mesmo e ninguém é uma ilha, infelizmente. Temos que nos relacionar, conhecer gente até para poder ter o julgamento não comprometido pelas aparências.

Mas viver no meio de tanta gente desconhecida não causa esse conhecimento não, causa na verdade problemas. Seu vizinho de garagem para o carro dele atravessado na vaga, o que te atrapalha na hora da manobra. Você reclama uma vez, duas, três e na quarta, o barraco está formado. Poderia ficar dias aqui relatando esses acontecimentos, mas eu tenho mais o que fazer e você que está lendo também.

Eu prefiro as comunidades virtuais. Lá ninguém tem carro e nem casa na praia. “Moramos” todos dentro do condomínio chamado Facebook e ninguém atrapalha a vida de ninguém. 

O bom da vida é que ela está caminhando pra isso. Em breve só nos relacionaremos com os outros virtualmente. Não será mais preciso ter esse contato físico que atrapalha muito mais do que ajuda. O conceito do “olho no olho” está caindo por terra e estamos criando uma espécie de “olho no monitor”, o que já está bom demais.

A proximidade das relações é o que causa as tempestades, nossos Egos falam mais alto e não somos capazes de viver bem em comunidades. Parece amargo, parece duro, mas é a verdade e não querer enxergar isso é forçar a barra para a cegueira coletiva.

Quando vejo as pessoas falarem sobre as suas empresas ou sobre as empresas em que trabalham e rotularem assim: “Isso aqui é uma família…” eu me assusto. Não há nesse mundo uma só família que não tenha problemas de relacionamento. Mas as pessoas insistem em achar bonitinho afirmar que por se tratar de uma “família”, tudo é lindo e maravilhoso.

Sabem por que as coisas (não) funcionam desse jeito? Porque nossos Egos vêm de fábrica sem um componente básico para conviver com outros Egos: Respeito. Alguns até tentam, mas quando percebem que respeitam sem ser respeitados, abrem mão dessa qualidade e procuram apenas os seus próprios interesses.

Só para constar nos autos, não estou revoltado hoje não, viu? Só meio bravo e indignado com o que ando vendo, lendo e percebendo nessa obra prima da tecnologia divina chamada Ser Humano.

Quanto mais “coletiva”, pior é a coletividade…

MM

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Prioridades

prioridades

Estava lendo essa semana, de antemão, uma matéria que vai sair na edição de estréia na revista Mulher Executiva. Trata-se de um bate papo com 5 mulheres que trabalham e tentam conciliar a vida pessoal com a vida corporativa. Não é nada fácil.

Essa matéria a partir da segunda edição será feita por mim, só que com 3 mulheres e não mais com 5. Além disso, o papo não será mais com um psicólogo como foi nessa primeira edição e sim comigo, digamos que darei uma Consultoria Pessoal às meninas em troca de suas opiniões e histórias. Diferente do que foi feito agora, no meu caso farei com um tema pré-definido: Tempo.

Já escolhido, o tema parece cair como uma luva para as mulheres, pois, por coincidência ou não, o que mais elas falam nessa primeira matéria é a questão da falta de tempo para organizar suas vidas pessoais e profissionais. Nada foi discutido profundamente, mas o fator Tempo esteve presente em seus depoimentos.

Como disse, não é nada fácil, pois as mulheres são mães, filhas, profissionais, esposas, donas de casa, enfim, elas têm muito o que fazer e parece que do Tempo é o principal inimigo. Algumas razões devem ser ressaltadas, porém eu não vou discutir isso por aqui, caso contrário a matéria que farei perderá todo o sentido.

Como esse Blog trata de assuntos referentes aos nossos Egos, vamos nos ater as questões mais pessoais, mas sem deixar de comentar algumas questões profissionais. A primeira delas que gostaria de me referir é prioridade. Mulheres têm uma dificuldade imensa em elaborar a tal lista de prioridades. Querem fazer tudo ao mesmo tempo e aí se atropelam. Sem falar que não priorizando vão, com certeza, se esquecer de coisas importantes ao longo do caminho.

Sempre tento buscar os problemas, bem como tratá-los, lá da raiz. Sou completamente a favor da expressão: O mal se corta pela raiz. E qual é a raiz do que estou falando? Listar prioridades? Equacionar as tarefas? Organizar o tempo? Não, nada disso. A raiz está no que nasceu primeiro, a pessoa ou a carreira?

A partir dessa resposta, que é óbvia, a lista de prioridades se forma sozinha. Tudo o que fazemos na vida tem que ter como ponto de partida o indivíduo. Simples, não? Pois é, mas como sempre digo, na prática a teoria é outra.

Poucos conseguem se colocar em primeiro plano. Normalmente por causa dos compromissos que acumulamos, temos a tendência de priorizar as responsabilidades, os envolvimentos, o trabalho, a família e só lá no finzinho da vida é que pensamos em nós mesmos. Aí é que nos damos conta que, depois que formos embora daqui, a vida de toda essa gente continua, independente da sua existência no meio deles.

Pensemos nisso uns instantes…

Pronto, vamos em frente. Não estou falando aqui que você deva mandar todas as suas responsabilidades para o alto, não é nada disso. Só estou querendo dizer que a falta de tempo para “cuidar” de si é o que mais incomoda as pessoas que trabalham, principalmente as mulheres.

E sinto que essas mulheres priorizam o mundo em detrimento de si mesmas. Ora, por que é que fazem isso? Querem o que, o rótulo de mártires?

Pessoalmente eu não valorizo gente assim. Ok, minha opinião pode não importar a você que está lendo isso, mas é o que penso. Acho que temos que dar um jeito de resolver essa questão de forma definitiva.

Não dá mais para agüentar enxergar, ou não enxergar, que toda a tecnologia que dispomos hoje em dia não possa ser usada em favor de diminuir o tempo gasto com as responsabilidades. Não podemos nem devemos nos livrar delas, mas não dá pra permitir que responsabilidades vençam. Não dá mesmo pra aceitar sem luta alguma que você abra mão da sua vida por causa da falta de tempo.

E não venham me falar que conseguem fazer as unhas e arrumar o cabelo. Isso é básico demais, a coisa tem que ser mais ampla, estamos falando aqui de viver melhor e não apenas sobreviver acordando, trabalhando, comendo e dormindo.

Num dos meus livros, escrevi algo sobre minha indignação sobre tempo, ou a falta dele. Era algo mais ou menos assim, talvez valha a reflexão:

“Por que corremos feito loucos para cumprir obrigações e não temos nenhuma pressa para nos divertir?”

Pense bem, porque é o que a maioria faz, acordamos e corremos para cumprir as obrigações numa segunda-feira e não temos pressa alguma em acordar num domingo e sair para nos divertir. Algo parece meio errado, não?

MM

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Beber pra Esquecer

Alcoolismo

Outro dia na revista Veja saiu uma matéria bacana sobre os perigos do alcoolismo, o aumento das mulheres que bebem, jovens, enfim, uma matéria bem pertinente nesses tempos em que os fumantes estão pagando o pato na sociedade. O legal é que nunca vi um fumante causar um acidente no trânsito nessas madrugadas da vida. Mas deixa isso pra lá, não vou defender fumantes ou atacar bêbados. Estou é preocupado com isso, afinal, tenho um filho de 20 anos que adora tomar umas e outras, segundo ele, controladamente. Sei, sei.

Algumas pessoas afirmam que bebem para se divertir, moderadamente o fazem apenas para “se soltar”, é o que dizem. Será? Será mesmo que é só pra isso? Claro que algumas pessoas fazem exatamente isso, por serem tímidas, bebem um pouquinho para relaxar e assim entendem que vão se divertir mais. Mais pode até ser na opinião deles, não necessariamente melhor.

Lembro da minha época de adolescente, a maioria dos amigos bebia muito. Como eu nunca bebi, ficava observando o comportamento deles… Era um tal de pegarem mulheres feias e chatas que vou contar, viu…

Mas eu não tenho preconceitos em relação a isso, não é porque não bebo que condeno os que bebem , como fazem os não fumantes que condenam meu cigarrinho. Eu nunca bebi por um simples fator: Eu gosto de estar consciente em todos os lugares que vou, consciente no sentido de estar lúcido, em estado de alerta mesmo. Claro que não suporto algumas bebidas, mas outras até que gosto, só não tenho o habito de beber. Mais ou menos como uma caipirinha por ano já tá bom…

Mas então… esse povo que anda abusando bebe cada vez mais e em intervalo de tempo menor, o que só pode querer dizer uma coisa ou outra: Ou estão querendo se divertir com mulheres e caras feios e problemáticos ou estão usando a bebida como recurso rápido para se esquecerem da realidade em que vivem. Eu fico com a segunda opção, porque francamente, gente querendo gente problemática não entra na minha cabeça, apesar de saber que mesmo os que não bebem podem entrar nessa roubada…

Além disso, como tive e tenho muitos amigos e amigas que adoram beber um pouco além da conta, percebo algo em comum nessas pessoas: São todas bem problemáticas. Claro que todo mundo nesse mundo tem problemas, mas estou falando aqui do que chamo de “Plus a Mais”. (Antes que algum leitor engraçadinho diga que essa frase é estúpida, saibam que eu sei disso e se trata apenas de uma brincadeira, ok?) Desculpem “explicar” a piada, mas o que tem de gente chata por aí é uma grandeza.

Os que bebem para não enxergar a realidade compõem a maioria. Poderia dizer melhor essa frase, poderia trocar a palavra enxergar pela palavra enfrentar. Sim, ficou melhor.

Enfrentar a vida é para os fortes. Mesmo que você se sinta incapaz – e como isso é comum – há que tentar buscar forças sabe-se lá de onde para enfrentar os problemas. Beber ajuda? Claro que ajuda, por algumas horas você fica como um idiota perdido no meio da vida achando que tudo é cor de rosa. Diga-se de passagem, tudo em dose dupla fica cor de rosa, afinal, quem está com a cara cheia enxerga tudo em dobro.

Brincadeira à parte, covardia é abominável. Mas existe até um ditado que fala mais ou menos assim: Um covarde vive para combater novamente. Ok, é um fato, mas vive de que maneira, hein? Sua consciência não o atormenta não?

O que me chama atenção nessa questão é que mais e mais pessoas usam bebida como atalho para resolver problemas. Isso é o que elas pensam, porque na verdade estão é entrando num círculo perigoso e sem volta. Quanto mais bebem, menos resolvem as coisas e pior, mais problemas arrumam por causa do próprio porre. Uma coisa é fato: Mais cedo ou mais tarde paga-se o preço pelas atitudes porque todo porre tem data de validade.

Quem não bebe também tem problemas, mas pelo menos está de cara limpa para detectá-los e enfrentá-los. Assunto complicado esse.

Entendo que uma coisa é de vez em quando você dar uma extrapolada, outra bem diferente é você fazer isso toda vez que sai de casa. E podem apostar, todos, absolutamente todos que têm problemas com a bebida, ou melhor, os que têm uma relação íntima com ela, afirmam categoricamente que “conseguem se controlar perfeitamente”. Então tá…

Muitos estão bebendo “para esquecer” a vida, mas ao se esquecerem dela estão de verdade se esquecendo de si. E mais, não percebem que a vida é que pode acabar esquecendo que eles existem.

MM

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Mentes Obscuras

escuridao

Quem nesse mundo consegue entender a mente humana? Vou além, quem nesse mundo consegue entender a própria mente? Ninguém.

Não deve haver uma só pessoa que não tenha, em parte de sua mente, diria até que nas profundezas, um lado escuro. Aqueles sentimentos que produzimos e armazenamos com o passar do tempo, com as experiências vividas e observadas. Aqueles pensamentos devastadores que temos nos momentos de infelicidade, ou melhor, de tristeza profunda.

Brinco muito com o nosso “lado negro da força”, fazendo alusão ao cinema, mas a verdade é que temos esse lado e ele não é apenas usado como… “fazer mal aos outros”, esse lado muitas vezes faz mal a nós mesmos.

Enfim, a idéia aqui é tentar descobrir porque é que temos pensamentos obscuros, aqueles que não dividimos nem com padres em confessionário nem com terapeutas. Provável que guardemos isso apenas para nós mesmos porque temos medo do julgamento dos outros ou talvez até por vergonha de pensar.

Ao contrário do que o senso comum absorve como uma verdade absoluta, um suicida, por exemplo, não é aquele que se mata sem anunciar. O senso comum “diz” que quem quer tirar a própria vida não anuncia, simplesmente faz. Isso é mentira e já foi provado cientificamente.

O suicida anuncia, o problema é que por causa do senso comum, ninguém dá bola. Quando acontece o crime, sim, tirar a própria vida é crime, as pessoas simplificam e falam: Ele(a) era louco(a). Já vi isso bem de perto. As pessoas não querem entender nem pensar nisso, preferem simplificar. É assim mesmo, ninguém mais quer pensar profundamente nas coisas da vida ou da morte, preferem rotular e ponto final.

Falando especificamente sobre esse assunto, o que se pode fazer com a mente de alguém que insiste em tirar a própria vida?  Ok, confesso que tenho certa curiosidade e vontade de estudar o tema, por isso adoro o filme A Ponte. Nesse filme que é um documentário sobre pessoas que pularam da famosa Golden Gate, há um pai que fala sobre o filho suicida (que por sinal é o único que pula e não morre) ter uma espécie de câncer mental que o perturba de tal maneira que parece ser incurável, como todo “bom” câncer deve ser. É lindo o depoimento desse pai. Lindo e profundo. Ele observa com perfeita e incomum clareza sua impotência diante de um filho que tem um “câncer” mental e optou por se jogar das alturas, como se aceitasse a opção do próprio filho em “curar” dessa maneira a suposta doença. Vale a pena ver, como estudo da mente humana. Eu já vi diversas vezes.

Esses pensamentos obscuros que aparecem em nossas mentes sem convite são mesmo bem esquisitos. Mas é assim que a vida é. Eu já falei tantas vezes sobre os compartimentos que tenho dentro da cabeça, mas hoje vou explicar novamente. Transformei a mente em uma escrivaninha do século retrasado. Daquelas que têm dezenas de gavetinhas devidamente categorizadas. Lá deixo separados os pensamentos ruins, bons, as idéias, os projetos, enfim, cada coisa em seu devido lugar, até lixo tem, como observaram os que leram meu texto Revirando o Lixo, texto este que está aqui nesse mesmo Blog.

A idéia de ter transformado a minha mente nessa escrivaninha chique e antiga teve um motivo especial: Toda escrivaninha como essa tem uma porta corrediça que fecha tudo. Isso é importante pra mim, vez ou outra fecho todos os compartimentos. Fazendo isso creio cegamente que estou trancando tudo e passo assim a não pensar em nada. E o que seria “pensar em nada”? E o que seria o nada? Filosofia de botequim à parte, é claro que não pensar é impossível, mas eu amo me enganar ou pelo menos tentar.

Agora estou às voltas com uma questão que está me atormentando noite e dia. Me sinto impotente diante de uma situação limite. Não há nada que possa fazer, apenas sentir. E esse problema nem é comigo e sim com uma pessoa que amo muito. Na verdade, trata-se de um problema que pode ser enquadrado no tema deste texto, algo perturbador de uma mente obscura.

Pensando nisso tudo chego à conclusão que a mente humana é terrível mesmo. Não sei o que aciona esse mecanismo autodestrutivo, talvez um conjunto de coisas e não um fato isolado. A dificuldade é acompanhar isso de perto quando se está longe.

Para quem está com pensamentos obscuros e busca essa saída, nada mais faz sentido, nada tem significado e nem querem ajuda alguma. Algumas pessoas, aquelas que estão vendo a situação “do lado de fora” sentem pena, dó. Não tenho pena de quem busca isso, acho que é um desperdício apenas. Mas a verdade é que a opinião dos outros não faz a menor diferença. Nem a de quem os condena, nem a de quem quer ajudar de alguma forma. Nada importa.

Tudo o que uma mente dessas quer é abreviar o tempo, é interromper o processo natural da vida. Nesse caso específico a que me refiro, o que a mente obscura em questão mais queria é sequer ter existido.

MM

PS: Tô aqui, torcendo pela sua recuperação. Amo você, Carolina.

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Escutar é uma Arte

Escutar é uma arte

Já reparou como fazemos certas coisas ao contrário? Nem pretendo enumerar, mas quero falar de uma coisa em especial hoje, quero falar sobre ouvir, calar, falar…

Pare de ler esse texto agora e vá até seu espelho. Não, nada de fazer terapia, apenas olhe para você e me responda o que vê: Quantas bocas e quantos ouvidos? Pode ir, eu espero…

Pronto? Então vamos em frente. Se tudo estiver correto, e se você não for o Niki Lauda, deve ter dois ouvidos e uma boca apenas, certo? E isso quer dizer o que, hein? Eu respondo: Que deveria escutar mais e falar menos.

Mas, como somos seres humanos, agimos de forma contrária, falamos mais e escutamos menos. Ok, temos que ter opinião, é claro e nem todo mundo tem. Há os chamados “seguidores dos outros” e pouco se importam em questionar o que lhes é dito. Mas para questionar, aceitar, seguir ou seja lá o que for, é preciso antes de tudo, escutar. Isso é uma arte. E para poucos.

Eu mesmo, o Marcelo Mello pessoa física, sempre fui de falar muito, mas… – sempre tem um mas – sou mais de falar para os outros sobre os problemas deles do que de mim mesmo. Por que? Simples, não conheci ao longo da vida muitas pessoas capazes de me ouvir. E olha que eu nem sou de exigir uma resposta, muitas vezes me contentaria apenas com alguém capaz de silenciar, ou até… capaz de escutar meu silêncio. Sim, isso mesmo que você leu, às vezes nem queremos que escutem nossas falas, queremos que escutem e entendam nosso silêncio.

Em vários momentos quando vamos falar de algo que nos incomoda, somos logo interrompidos. Tipo… você fala que está com dor de cabeça, a pessoa te interrompe e fala que a dor dela é maior. Parece até competição. Em suma, sempre tive dificuldade de encontrar eco quando falo dos meus problemas, quando tento descarregar o meu peso extra…

Em meu trabalho tenho, teoricamente por obrigação, que ouvir mais do que falar. Mas é claro que isso só em teoria, por um simples motivo: Quem me procura não está fazendo isso sem motivo. Elas querem ajuda de fato, querem se livrar de problemas e buscar um melhor bem estar mental. Sabendo disso, sinto muito se desagradarei outros profissionais da área, eu me sinto à vontade para falar com meus clientes. Não impor, e sim falar, discutir os problemas de forma profunda, fazendo uso da empatia e do bom senso. E certas vezes, descubro que meu silêncio ajuda muito também.

Quem está de fora do problema pode ter uma percepção melhor ou pior, mas, sobretudo será uma percepção diferente. E quem procura ajuda tem esse foco, quer na verdade justamente isso: Buscar algo que as faça enxergar a questão que incomoda por outro prisma, ou seja, diferente do que elas pensam.

Ouvir problemas não é fácil. A tarefa é árdua, porém gratificante pelo simples fato de que eu entendo que é justamente isso que está faltando nas relações, sejam elas de qualquer natureza: Ouvir o outro.

Para quem procura ajuda deve ser delicioso perceber que está sendo ouvido. Por mais simples que um problema possa parecer aos olhos de quem escuta, para quem fala um probleminha pode ser um monstro. E colocá-lo pra fora é, em certos momentos, um desafio grandioso. As pessoas não querem escutar, querem falar. A coisa se complica porque para quem está com o problema, a necessidade é de falar e não de ouvir. E como já disse, todo mundo fala mais que a boca.

Há problemas que são difíceis de resolver. Mas para quem os tem, só o fato de colocar pra fora já é um alívio. E se alguém escuta, já está ajudando e muito. Entenda-se por escutar, absorver, entender, ouvir de fato.

O que isso quer dizer? Bem… se você pensar nisso um pouco, poderá entender melhor que às vezes um amigo te procura porque precisa do seus ouvidos emprestado, para te contar algo e sem nenhuma necessidade de ouvir sua pregação, ele quer apenas desabafar.

Temos que ter consciência de que nem sempre o que falamos ajuda e como toda e qualquer relação é e tem que ser de mão dupla, um dia você ouve, noutro você fala.

Essa questão pode ser resumida assim: Tudo o que tem que existir entre amigos, família, casais e colegas de trabalho é apenas um ponto: Troca. E é bem possível, por que não dizer necessário ou viável, trocar palavras por silêncio.

MM

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Infelicidade Feminina

seio

A revista Época desta semana traz uma reportagem muito interessante sobre a infelicidade da mulher atual. Sim, elas são mais infelizes do que nós homens, segundo diversos estudos e pesquisas realizadas pelo mundo. Não vou reproduzir os pontos mais importantes tampouco discutir quem está certo ou errado, uma vez que as discussões sobre isso não são conclusivas.

Quero pegar apenas um ponto: A estética.

Nos últimos anos criou-se um padrão de beleza artificial. A preocupação com isso lota as clínicas de cirurgia plástica, spas, etc. A indústria que mais cresce no mundo é justamente a que produz os tais produtos de beleza. Ok, sabemos que todo mundo tem medo de ficar velho, isso é inegável, mas por que tanta preocupação em ficar belo?

Será mesmo que um seio de borracha é mais bonito do que um seio natural? Bonito pode ser, mas sinceramente, eu prefiro tocar um seio natural do que em um de borracha.

Sou realista e como tal, prefiro sempre o que é verdadeiro, cultuo a essência, a verdade, jamais o artificial. Vejam meu próprio exemplo: Comecei a perder os cabelos com 18 anos. Com 26 mais ou menos eu já era do jeito que sou hoje. Jamais, mesmo com incentivos da minha família para fazer tratamentos até fora do país, eu me preocupei com isso. Não sou hipócrita em afirmar que prefiro ser careca a ter longos cabelos loiros – sim, eu os deixaria crescer se os tivesse – mas não ter cabelos jamais foi uma questão que considerei como fator preponderante para a minha felicidade ou infelicidade.

A questão física e estética para mim não foi e jamais será levada em consideração. E isso jamais me atrapalhou nas conquistas amorosas. Há quem goste e quem não goste e eu sempre respeitei a opinião dos outros, mas cá entre nós, quem se importa com a beleza em primeiro lugar, sinceramente, não me interessa como pessoa. Até porque eu sei que posso oferecer mais do que cabelos longos.  Acho que os homens são desse jeito, a gente até se cuida, claro, mas sem essa neura feminina.

Já as pobres coitadas das mulheres não pensam assim. Elas querem por que querem se tornar Giseles. Ou Julianas Paes. Mesmo com aquelas olheiras horrorosas, mesmo com a bunda cheia de celulite que depois de um trato no photoshop, ficam perfeitas. Não importa a que preço, não importa se fazem ou não mil plásticas, o que as mulheres querem é ser perfeitas fisicamente.

Isso custa caro e não falo aqui do preço que esses tratamentos têm. Esqueçam o dinheiro, falo do custo psicológico da coisa. Esse preço é caro demais para as mulheres. O mercado conspira em favor dessa irrealidade toda. As capas de revistas só vendem se tiverem ali mulheres perfeitas. Perfeitamente “photoshopadas”. O que vende é a mentira, não a verdade. O mundo é assim, irreal. E as mulheres comuns caem nessa armadilha.

Como a esmagadora maioria é composta de mulheres que têm os famosos três quilinhos a mais, é óbvio que o resultado disso não fará bem à autoestima feminina.

Será que as próprias mulheres não percebem o quanto buscar a perfeição física faz mal a elas mesmas? Será que não passou da hora do mercado assumir, perceber e entender que o universo feminino é muito maior do que só a estética? Até quando esse povo vai pisar na cabeça das mulheres, sendo que elas mesmas é que são as que consomem as revistas com beldades na capa? Eu acho isso um tiro no pé, sabia?

Até porque sabemos que as fotografias de hoje em dia são enganosas. Eu, caso fosse debandar para o mundo da fotografia, podem ter certeza, jamais usaria qualquer artifício que fugisse da naturalidade para produzir minhas fotos. Iria preferir encontrar um bom ângulo da pessoa, é claro. Uma melhor luz, por que não, mas photoshop jamais. É a mesma coisa que jogar na cara da pessoa que ela é feia e que eu a transformei numa mulher perfeita. Eu nunca faria isso com uma cliente.

Não somos perfeitos, nem por dentro, muito menos por fora. Aceitar essa imperfeição não tem, nem de longe, o mesmo efeito negativo para a autoestima do que buscar a perfeição artificialmente.

Engraçado constatar que a culpa desse mercado crescer tanto é das próprias mulheres que são as mesmas que vão sofrer com a infelicidade. Pois eu acho que as mulheres são muito mais do que um corpo bonito, um rosto sem rugas e “peitinhos” empinados à custa de muita borracha.

Elas é que têm que pensar sobre o assunto e mudar o mercado. Elas é que estão aceitando a própria infelicidade, portanto, são elas que têm que fazer algo por si. Vejo muitas mulheres reclamando dos “padrões atuais de beleza”. E quem é que aceitou isso como padrão, hein?

MM

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Bem Resolvidos

Cubo

Engraçado a imagem que passamos para os outros. Às vezes é igual a que temos de nós mesmos, outras vezes é completamente diferente.

Em meu trabalho eu lido com pessoas e lidar com gente é algo bem complicado. Mas eu gosto, acho que é minha vocação natural lidar com seres humanos. Apesar de que não sou um admirador da raça, no fundo eu gosto e até posso afirmar que me dou bem fazendo o que faço.

Por conta disso, muita gente acha que eu não tenho problemas, afinal, a maioria de nós pensa que profissionais que trabalham com pessoas são seres bem resolvidos. Ledo engano, basta você aí do outro lado pesquisar um pouco que vai perceber que todos temos basicamente os mesmos problemas, basicamente as mesmas crises.

Nunca liguei de expor o que penso, como penso e o que sinto. Sei que muitos profissionais têm esse medo e preferem vestir a máscara dos bem resolvidos, mas eu afirmo, é tudo mentira, como disse, é uma máscara. Eles devem ter seus motivos para fazer isso, e para ser bem sincero, eu não tenho nada a ver com isso, cada um que faça o que bem entender.

Mas como dizia, alguns clientes que tenho ou tive, alguns amigos também acham que por fazer o que faço eu sou o cara mais bem resolvido que existe. Pois então, o que será que quer dizer “ser bem resolvido”?

Duvido que alguém tenha essa resposta, pois, além disso, duvido que exista ou mesmo que alguém saiba explicar isso direitinho.

Por diversas vezes tentei responder. Indo além, tentei ser um cara bem resolvido. Mais um pouco além, tentei fazer de meus clientes seres bem resolvidos. Ingenuidade de minha parte. Não é possível que alguém nesse mundo consiga ser bem resolvido em todas as áreas da vida, mesmo aqueles seres super felizes que fingem existir por aí. Até porque, se fosse mesmo verdade, seriam uns chatos.

Sempre falta uma coisinha aqui outra ali, coisa que é bem natural, eu diria. A vida deve ser isso mesmo, temos que nos conscientizar e aceitar. E isso, saibam, nada tem a ver com conformismo. O que estou querendo dizer é que um ser humano é composto de muitas coisas e uma mais complexa do que outra. Ajeitar tudo é muito mais do que uma tarefa difícil, é uma tarefa impossível. Pessimismo? Não, trata-se do mais puro realismo.

O que não quer dizer que devamos ficar sentados sobre nossos defeitos e problemas e acreditar que o mundo que se vire par a lidar conosco. É tentador, eu sei, mas não é o melhor a fazer. Muito menos aceitar o mundo como ele é e fazer o que os outros fazem. Nada disso resolve.

O ideal é que saibamos dos nossos defeitos, dos nossos problemas e também das nossas qualidades. Sim, qualidades. É tão mal resolvido quem não sabe lidar com defeitos como quem não sabe lidar com as qualidades. Ser, ou melhor, tentar ser bem resolvido nada mais é do que tentar aprender a lidar com as coisas da vida e encontrar nosso espaço nesse mundo.

Achar a melhor maneira de encarar a vida e suas mazelas, bem como aceitar, entender e aprender com as coisas boas que temos. Meio que tentar levar para o nosso lado negro da força o nosso lado bom. Todos nós temos um lado bom, por pior que pareça. Que frase estranha… Deve ser efeito do sono…

Deixa eu tentar explicar. Mais ou menos assim: Perceba que você sabe lidar com determinadas coisas melhor do que outras. Isso é óbvio. A idéia é tentar levar esse sentimento ou essa percepção e atitude para as coisas com que lidamos mal.

Simples? Claro que não, mas a busca é eterna. Tem que ser eterna. Caso contrário, além de não sermos bem resolvidos nos tornaremos seres bem mal resolvidos. E aí o convívio fica complicado, não é?

E não pensem que estou falando do convívio apenas com os outros não. Quem me conhece sabe que me preocupo – e tento fazer com que meus clientes façam o mesmo – com o convívio com o próprio Ego. Caso você me acompanhe “desde sempre”, deve saber o que penso sobre o Espelho, é disso que estou falando.

Ninguém nesse mundo deve se olhar no Espelho e enxergar somente um lado ruim, tampouco apenas um lado bom. O objetivo inicial da Terapia do Espelho, a qual sou adepto e defensor é antes de tudo, conseguir olhar nos próprios olhos.

Já é um grande começo. Depois do “começo”… bem, aí eu teria que cobrar uma consulta para falar mais sobre o tema…

MM

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