Acorrentados

Acorrentado

Todas as profissões, nos últimos anos, passaram por grandes modificações, talvez mais do que isso, evoluções. Para citar um exemplo, diria que na medicina as coisas hoje em dia são bem diferentes do que eram num passado bem recente.

Lembro que um jogador de futebol que operasse o joelho, levava cerca de 8 meses, às vezes até um ano para se recuperar, fosse qualquer tipo de intervenção. Hoje em dia, dependendo do que fazem, voltam a jogar em poucas semanas. Isso é fruto de muito estudo, muita tecnologia e muita inovação. Podemos pensar que acontece de fato em várias atividades profissionais.

Ainda na medicina, posso afirmar que 99,9% das doenças do corpo já devem ter sido catalogadas, mas os tratamentos é que passam por modificações. Isto posto, vamos em frente.

Eu pergunto: E na psicologia, o que há de novo? Acredito eu no mais sincero modo-humildade que não sabemos ainda quais e quantas são as doenças psíquicas. Cada dia surge um distúrbio novo e me parece que o que evolui nessa área são as doenças e não as curas.

Ok, desci do altar da humildade e volto agora ao meu particular mundo da falta dela, perguntando novamente: O que há de novo na Psicologia? O que há de revolucionário, que teorias novas surgiram, que tratamentos eficazes apareceram nos últimos anos?

Tudo bem, eu leio muito sobre o tema desde que abandonei a faculdade, confesso que não agüentei continuar no curso justamente porque os professores me pareceram acorrentados às teorias do passado. Ora, no alto de minha humildade, inocência com pitadas de arrogância, entendi que um curso de Psicologia nada mais é do que ler, entender e aceitar as teorias propostas há longa data. Não vi nada de novo e, sinceramente, não acreditei que entre meus colegas e professores fosse surgir uma mente brilhante capaz de trazer algo novo no quesito: Tratamento da mente humana.

Vestindo novamente a roupa da humildade, entendo perfeitamente que, mesmo lendo muita coisa a respeito, é também verdade que não devo ter lido nem 10% de tudo o que se publica a respeito. Mesmo assim, tiro minha “sandália da humildade” e sigo em frente acreditando no que disse acima: Nada de novo surgiu a não ser aquele fantástico livro Inteligência Emocional do psicólogo Daniel Goleman. Fantástico porque ele trouxe uma percepção bacana sobre a inteligência, mas nada que não seja tão óbvio assim. Apesar disso, ele tem um grande mérito de ter trazido esse assunto à luz.

Por falar em óbvio, é isso o que mais evoluiu no mundo da psicologia: A constatação do óbvio.

Me desencantei com a faculdade justamente porque não vi nada, absolutamente nenhuma discussão em sala de aula, em palestras durante a “semana da psicologia” que me fizesse crer que algo de novo dali surgiria. Nada! Ao contrário, era uma mesmice que dava até sono. Só discussões sobre o que alguém já tinha “inventado”, descoberto ou publicado no passado.

Oras bolas, eu sou um cara criativo, estou sempre buscando algo novo e, mesmo quando dou com os burros n’água não desisto de procurar “o novo”, o caminho que ainda não foi trilhado. Já escrevi sobre isso uma vez, tenho medo do conhecido e não do desconhecido.

Vai ver que eu tenho alguma Síndrome de Bandeirante, sei lá se em outra encarnação fui o Fernão Dias ou quem sabe Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera (Nossa, será que fui uma “rodovia”?). O fato é que o novo me fascina e não sossego enquanto não vejo algo diferente. O que me desencantou foi constatar em apenas dois anos de estudo que eu sairia dali talvez engessado como todos os outros e isso não condiz com minha personalidade. Em vez de reclamar e choramingar pelos cantos, tirei meu time de campo, pois não era meu sonho permanecer preso à teorias do passado.

O mundo evoluiu muito e só evoluiu por causa dos seres humanos. Hoje vive-se mais tempo, os cinqüentões são os novos trintões e por aí vai. Não sei se vivemos melhor, mas é inegável que vivemos mais tempo. Nada mais natural do que constatar que quanto mais se vive, mais sujeitos a problemas estamos, quase que mais expostos às crises existenciais de todo tipo.

Isso me obriga a usar meu raciocínio lógico: Lá em cima no começo deste texto, eu disse que praticamente todas as doenças já foram catalogadas e assim mesmo, a busca é incessante pela cura desses males. Ora, se mesmo tendo-se descoberto todas as doenças eles continuam evoluindo, entendo que se ainda não foram descobertas todas as doenças psíquicas o campo de pesquisa é ainda muito maior, deviam não só correr atrás das doenças como das curas.

Olhando bem de pertinho e sem nenhum medo de parecer arrogante, vejo e senti na pele que terapeutas engessados não curam ninguém. É nisso que acredito: Não se pode e nem se deve achar que uma teoria lá do passado vá servir para um problema da mente atual. Tudo nesse mundo mudou, a dinâmica das pessoas é outra, não posso me conformar que os tratamentos psíquicos permaneçam engessados e ineficazes.

É hora de se criar algo novo, algo que dê resultados efetivos. Não vejo outra maneira de isso acontecer que não seja mandar um recado aos “teóricos” de hoje: Joguem o óbvio no lixo, usem apenas o brilhantismo que já foi descoberto e tratem de ser mais criativos no presente e no futuro.

MM

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Publicado em Ego. 16 Comments »

16 Respostas to “Acorrentados”

  1. Bel Says:

    Teorias…podem ser maravilhosas. Mas, precisamos mesmo de soluções. Concordo com você, na medicina os tratamentos sofreram grandes modificações…grandes descobertas. Mas, a psicologia anda a passos de tartaruga.
    Vejo isso diariamente. Sou professora da rede pública, numa cidade vizinha.
    Estamos num verdadeiro caos.
    Motivo ???
    Afastamento de professores por motivos psicológicos. Só na escola onde trabalho, são três. Duas deles estão há anos em tratamento…e nada. Vira uma bola de neve, Não se consegue resultados no tratamento, sobrecarrega-se os demais, que acabam tendo problemas psicológicos também.

    Má, adorei seu texto. Sei que você não se sente incomodado, com as ameaças que recebeu…rs. ” Cuidado com o que escreve”… ” Pretendo enviá-lo para o CRP”.

    Crianças são extremamentes verdadeiras. Muitas vezes suas verdades até “machucam” . Com o passar dos anos, aprendem a camuflar a sinceridade. E o que mais AMO em você, é justamente o fato de não usar nenhum tipo de “camuflagem”. Você é transparente, escreve o que pensa…o que sente, sem importar-se com o que vão pensar, sem importar-se com as consequências.
    Esse, é o MM que eu acompanho a quase dois anos…rs
    Concordo com a Carla, você faria a diferença se tivesse prosseguido na psicologia…rs

    Marlì, agradecemos a preocupação. Mas, falo em nome de todas as leiroras ( es) do MM.
    NÃO SOMOS INFLUENCIÁVEIS.

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  2. Carla Canto Says:

    MM, me perdoe!
    Em termos, condordo com a abordagem da dogmática antiga. Entretanto, se você estudar Socrátes, Platão, e principalmente Aristóteles, verás que suas teorias se enquadram perfeitamente no mundo em que vivemos. Embora hordienamente tenhamos filósofos maravilhosos, as teorias de pitágoras, Kant…. como apaga-las?
    Ao invés de ter abandonado a faculdade de psicologia, você deveria ter se formado mestre e quem sabe doutor a defender novas teses. Sei que esbarro na sua humilde sandália,mas vc ainda tem chances!
    beijos

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  3. Fernanda Says:

    Colocarei seu nome em minhas orações!!
    Tenha certeza disso!! E tudo vai melhorar….
    E, assim como no Pai Nosso: “Livrai-nos do mal… Amém”.

    Bom final de semana!!!!

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  4. Vanessa Says:

    Oi MM,
    Ai ai, você sabe como ninguém como criar uma polêmica, que energia, risos.
    Eu mesma já discuti com você tantas vezes, mas hoje dou a mão à palmatória. Seu texto e pensamentos estão brilhantes.
    Sabe Marcelo, minha irmã é psicologa e vive dizendo coisas de forma prepotente e definitiva. Será que as instituições formadoras destes profissionais pararam no tempo ou será que elas é que ensinam que um psicólogo está acima do bem e do mal como você bem escreveu em um dos seus livros?
    Sinto que hoje você quis nos mostrar que devemos tomar certos cuidados na busca pelos tratamentos de disúrbios que todos nós inevitavelmente temos. É preciso muito critério nesta busca porque eles generalizam os disturbios e fazem ainda pior, eles tratam todos de maneira igual.
    Imagine quantas e quantas vezes eu que me considero uma eterna inconformada já discuti com minha irmã sobre isso?
    E sabe o que ela me responde no mais alto altar da prepotencia?
    Que eu não sei de nada.
    Quase que como uma religião: É assim porque é assim, sem explicações que façam sentido para mim.
    Pois eu estou com você, achei sua opinião perfeita e como disse a leitora Ana Marta em seu comentário, uma opinião tem que ser respeitada e pelos outros comentários das profissionais, elas nem são capazes de respeitar a opinião do outro. Grandes psicólogas elas devem ser, né MM.
    Um super beijo meu querido, continue assim livre, desacorrentado porque seus pensamentos nos ajudam e você nem deve fazer idéia do quanto.
    Vanessa

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  5. Ana Marta Says:

    ESTOU PERPLEXA!!! MM deixa eu ver se entendi o texto, você diz que a profissão engessa no sentido de não dar uma preparacao para os profissionais caminharem sem livros?
    Pois eu posso dizer pois cresci com 3 psicologos entre familares e amigos e te digo, nunca os vi dizer nada diferente do que esta pregado nos livros ou que ja tenha sido dito antes.
    Eu faço terapia e dentro das possibilidades sei que me ajuda sim em algo, mesmo que na constatacao do obvio, afinal, você mesmo disse uma vez em um dos textos, algo como “o obvio nem sempre é tao obvio assim” e precisamos de uma ajudinha.
    Mas OPINIAO É OPINIAO. Imagine que eu abra minha casa e entrem 6 duzia de gente e um me diz: Ana, voce não pode falar assim na sua propria casa !!! MM, como você aguenta ? MM esse espaço é seu e por favor continue colocando o que você pensa sem censura. Adoramos! sou sua leitora justamente por esses textos que você nos presenteia.
    Azar dos engessados.
    Grande beijo.
    A. Marta

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  6. Laura Says:

    Pode ser que você tenha certa razão, Marcelo. Humildemente falando, vou pensar sobre isso com maior profundidade.

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  7. Lucas Says:

    Cara, como tudo o que escreve, você foi genial, mais ainda hoje.
    Uma aula.
    Obriga as pessoas a pensar sobre o que os psicologos estão fazendo, ou seja nada.
    Parabéns.
    Abraços,

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  8. Mariana Says:

    Oi Má!
    Nossa, isso aqui tá fervendo, também, pudera, vc colocou a psicologia no seu devido lugar.
    Já fiz terapia e não vi nada acontecer na minha vida. Mudei de terapeuta e nada. Será que o problema sou eu? Me ajuda, Mááááá.
    Acho que o problema é metodologia e não o paciente.
    Amei, amei, amei.
    Beijos
    Mari

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  9. Leticia Says:

    Como paciente digo que você está coberto de razão. Nada de novo acontece e por muitas vezes já pensei em mudar ou desisitr da terapia.
    Constatação do óbvio é a exata visão que tenho.
    Ótimo texto e excelente respostas às terapeutas de plantão.
    Se elas fossem boas como pregam, nem leriam seu blog, se fazem é porque devem aprender muito com você.
    Um beijo grande e tenha um excelente fim de semana.
    Leticia

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  10. MM Says:

    Oi Laura,
    Então, vc tá meio certa, talvez sejam os pacientes, mas sinceramente, acho que um bom profissional, estimula o paciente a “acelerar” seu próprio processo de melhora, não acha?
    Bjs

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  11. MM Says:

    Olá Marli,
    Acredito que se vc ler novamente seu comentário, vai perceber que diz exatamente o que eu falo no texto: Nada de novo surgiu nos últimos anos. Além do que, vc afirma que nada mais existe a ser descoberto. É isso mesmo, li certo?
    Então tá bom, espero que tire o gesso em breve e volte a ter uma mente livre e aberta.
    Beijos

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  12. MM Says:

    Não gosto de responder aos comentários, mas hj quebro essa minha regra porque sei que o texto vai exigir isso.
    Então vamos lá, minha querida leitra:

    Desafio do debate aceito, espero que conheça algum veículo de comunicação, assim podemos atingir o maior número de pessoas possível, ok? Marque a hora e o local que estarei lá pronto para ser “derrotado”.
    Quanto a enviar este texto ao CRP, fique à vontade…
    E só pra constar, eu não consegui terminar o curso simplesmente porque não aguentei e me recuso a engessar minha mente.
    Boa sorte a vc!

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  13. Marli Fagundes Says:

    Bom dia, Sr Marcelo.
    Sou sua leitora e assídua visitante de seu blog. Como terapeuta, não poderia deixar passar em branco minhas considerações.
    Entendo, porque faz parte da minha profissão entender, que sua posição de decepcionar-se com o curso de psicologia seja natural. Não é todo mundo que aguenta.
    Porém, acredito que voce exagera quando diz que nada de novo tem aparecido. Até concordo em partes com isso, mas não da forma exacerbada com o que você fez.
    Seu blog deve ser bem visitado porque é fácil achar você nos sites de busca, ainda mais pelas tags que você coloca, fica bem simples encontrar o que você escreve.
    Deveria ter mais cuidado porque você sabe muito bem como manipular a mente humana e influenciar seus leitores, ou leitoras, já que é a maioria por aqui.
    Tome cuidado, você pode estar fazendo um mal muito grande a essa gente por revelar sua opinião ácida sobre este tema.
    Não me sinto acorrentada a nenhuma teoria do passado, apenas as utilizo porque não há nada mais a ser descoberto.
    É só um aviso, cuidado com o que você escreve.
    Abraços e desculpe pelo tom de desabafo.
    Marli

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  14. Eleonora Says:

    Olá Marcelo,
    Estou com tanta raiva de ter lido este texto que pretendo enviá-lo para o CRP.
    Você não pode publicar algo tão danoso, tão maldoso. Se você não conseguiu terminar o curso de psicologia, problema seu, agora culpar os professores e psicólogos é o fim da picada.
    Acredito que o CRP deverá tomar medidas processuais contra você.
    Sinto muito, mas por escrever tão bem e tão lindamente certas coisas, este texto me causou uma profunda decepção e indignação.
    Gostaria de debater este tema com você pois sei que iria derrotá-lo.
    Absurdo.

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  15. Gisela Says:

    Oi MM,
    Apoiado. Fiquei anos fazendo terapia e não senti nenhuma melhora de comportamento, foi como você disse, uma constatação do óbvio atrás de outra. Pode ter sido falta minha? Pode, mas será que eu ter procurado ajuda não significa que eu dei o primeiro passo?
    Adorei e pode ter certeza, estou enviando o link para minha terapeuta, quero que ela leia com muita atenção.
    Beijos e obrigada, você novamente tirou um peso das minhas costas. Você é genial.
    GI

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  16. Laura Says:

    Acredito que não precise explicar minha opinião sobre esse tema, não é?
    Acho que você generalizou, apesar de ter certa razão em relação à falta de teorias novas.
    Sinceramente, não gostei e tomo as dores dos psicólogos porque nós fazemos um trabalho muito bom com as mentes humanas. Talvez os resultados sejam lentos, mas depende de cada um e não dos profissionais.

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