Iceberg

Iceberg

Dia desses recebi um texto de um amigo/leitor que falava sobre uma tal de: Síndrome dos Vinte e poucos anos…

Texto interessante, mas diria que um tanto quanto precoce. Lá o autor parecia vivenciar um conflito, uma verdadeira crise de idade. Precoce porque pouca gente tem crise existencial aos vinte e poucos anos. Normalmente a crise aparece depois dos trinta.

Pouca gente, como disse, mas não nenhuma gente. Sim, é fato que os seres mais intensos levam a vida pensando nela e tentando entender qual é o sentido de tudo isso. Papo para longas horas de conversa, ou de escrita…

A verdade é que, como estou beirando os cinqüenta, mesmo que com corpinho de sessenta e cabeça de trinta, esses conflitos relatados no texto que mencionei me fizeram pensar e não só isso, me fizeram lembrar da minha crise dos vinte e poucos anos, para ser preciso, crise dos vinte e sete.

Naquela época eu morava sozinho, vivia uma vida de baladas, sexo, viagens, tudo sem medidas, tudo sem critério, absolutamente uma vida louca. Eu adorava, mas não foram poucas as vezes que me peguei pensando no futuro, o que me entristecia. Quando estamos vivendo plenamente, pouco nos damos conta do futuro. Eu trabalhava muito, vivia muito e passei a me preocupar muito.

Alguns se preocupam com o futuro financeiro, outros com a vida pessoal – relacionamentos, família, etc. – mas eu me preocupava com o sentido de tudo isso. Tentava encontrar um sentido para tudo o que fazia, em todas as áreas da minha vida. Jamais encontrei.

Constatado isso, hoje, passados 20 anos, vejo que as respostas ainda não são claras, talvez jamais sejam. Aí vem aquela dúvida: O que é que faz sentido nessa vida?

A gente nasce, cresce, se reproduz e morre. Pouco? Sim, bem pouco, mas basicamente é isso o que fazemos. Já gostei muito de viver e também já desejei morrer, mas o fato é que esses altos e baixos, pelo menos para mim, fazem parte do meu cotidiano desde sempre.

Já tive, como todo mundo, medo do futuro, arrependimentos pelo passado e agora percebo que existe uma generalização do medo do presente. Para qualquer lado que me viro, vejo gente com medo do presente. Alguns mais prudentes agregam ao medo do presente, um medo exagerado do futuro, tentam prever suas aposentadorias, enfim, coisas que não quero falar agora.

Muito bem, e de onde é que vem esse medo do presente? Bom, parte vem do passado, afinal, é por coisas passadas que chegamos até aqui. E o que essas pessoas estão fazendo efetivamente para que esse medo desapareça? Pois é, não vejo muita coisa sendo feita não.

Percebo, é claro, uma preocupação em buscar o entendimento de tudo isso, mas ações práticas não vejo não. Parece que todo mundo está com problemas e a única coisa que tentam fazer é constatar isso, poucos querem resolver.

Mas sejamos justos, aí entra o “X” da questão: Como é que se resolve isso?

Ok, buscar o entendimento, o que quero dizer, reconhecer que há um problema é o primeiro passo, óbvio, mas o que fazer para sair dessa?

A resposta é muito simples, porém a execução nem tão simples assim: Encontrar o que realmente se quer.

Parece fácil e se eu te perguntar agora o que você aí do outro lado realmente quer, vai me responder um monte de coisas impulsivamente, mas a resposta mesmo, a resposta efetiva e verdadeira, duvido que a tenha. Peguei pesado, não é? Sim, sei que peguei.

Sem saber o que se quer, jamais vai conseguir mudar o que te incomoda. É fato que descobrir o que quer não é das tarefas mais simples, muito menos decidir por mudar o que deve ser mudado.

Tudo isso dá uma falsa impressão de ser bem simples, mas faça o exercício, pergunte a si mesmo se sabe o que quer e o que deve fazer para alcançar. Sinto em dizer, mas vai perceber que é bem difícil encontrar as respostas.

A dica que eu dou é: Viva o presente, experimente o novo sem medo, sem expectativas e sem pensar muito no futuro. Como se fosse uma degustação. É o único modo de descobrir se algo te faz ou não bem. Depois, bem, depois deixemos para depois, afinal, crise aos vinte e poucos e só a pontinha do iceberg… Na verdade, qualquer crise, em qualquer idade… 

MM

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Publicado em Ego. 10 Comments »

10 Respostas to “Iceberg”

  1. Lau Says:

    Estou com 22, numa baita crise existencial, pensando muito, buscando respostas, tentando me compreender.
    Tenho lido seus textos e me identifiquei com muitos deles, são realmente esclarecedores e sinceros. A verdade dói, concordo.
    Abraços

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  2. Mariana Says:

    Muito bom o texto!

    Me vejo em meio a uma crise existencial, com meus 24 aninhos… e que diga-se de passagem tem sido muito longa….
    E percebo, com certeza, que se soubesse o que realmente quisesse, talvez seria amenizada…

    Ao ler os comentários, me veio uma frase de Nietzsche, que sempre me faz pensar no sentido da vida, na minha vida pra ser mais exata:

    “Amamos desejar mais do que amamos o objeto de nosso desejo.”

    Percebo que a minha vida tem sentido quando sei o que quero, e o quanto desejo tal coisa… mas quando alcanço as vezes sinto que não teve o mesmo prazer que tive ao tê-la desejado… e me pergunto se valerá a pena continuar desejando outras coisas… e concluo que é melhor continuar desejando pra sentir prazer dia-a-dia e não somente quando eu alcançar a meta…
    Mas quando não sei o que quero… simplesmente entro em “colapso”, como o que me encontro agora….

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  3. Danilo Says:

    Por muitas vezes é díficil descobrir o que nos encomoda… e isso cria um certo vazio….como aquela velha história de que ” vc tem tudo e sente como se não tivesse nada” ..é, eu sei muito clichê ..mas realmente acontece.
    Acredito que independente da idade existe sempre um ponto em que a cabeça entra em “pane” e as perguntas vem sem parar …e o problema é achar esse monte de resposta que queremos… assim, perdemos o foco..e fica cada vez mas díficil saber o que realmente nos incomoda!

    Por muitas vezes creio que a maioria das pessoas não querem saber o que realmente incomoda..pois a resposta para esta pergunta pode vir acompanhada de dor, e com certeza ninguém quer sofrer ..por isso é mais fácil viver sem respostas do que obte-las.

    Espero que a crise dos 20 passe ..pois acho que a minha foi precoce demais!
    Obrigado pela atenção e pela confiança e principalmente pela amizade!!

    Grande abraço

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  4. Lia Says:

    Engraçado, dos vinte e nove aos trinta eu tive uma crise existencial,rs. Agora vou fazer quarenta e não tô nem aí…
    Não sei exatamente o que eu quero mas não me angustio mais tanto…Será???rs.
    Tempo, tempo. Terá fim? Existiremos para sempre? Haverá este céu tão moralista e careta que pregam os religiosos de todo credo onde só os livres de todo e qualquer pecado tem direito? O que é pecado? Reconhecerei meu avô se lá chegar e se houver este lá- lar? Terei a chance de vê-lo de novo?
    Meu pai está com o coração quase do tamanho do pulmão esquerdo, descompensado e com insuficiência cardíaca…Ano passado minha mãe superou um ca de mama com metástase para osnódulos linfáticos e ainda colocou três pontes. Não aguentou bem a quimio e fez só a metade(internada) – tem 67 anos. E a família, eles, nós, vivemos como o amanhã fosse eterno ,caso contrário morreríamos de stress.Acordarão? Morrerão dormindo? Quantos não vivem apenas o dia a dia? Pensar demais dá distonia mas é inevitável…Quantos não vivem apenas do passado? Ou no futuro- do futuro, com medo dele? O passado já foi, o futuro ainda vem, o sofrimento de hoje é o que dói mais…Será? Será que existem mundos paralelos onde o passado, futuro e presente acontecem ao mesmo tempo à nossa revelia ou aquiescência e dependendo do humor aperta “play”, “rew” ou “rwd”???
    Comecei a ler Nietzche sem ter embasamento prá tanto. Não tenho embasamento de nada- Tipo, mar de conhecimento com meio palmo de profundidade.Aí encontro um sábio pelos caminhos virtuais da vida.
    Voltei para Heráclito…Tudo flui mesmo?
    Esse seu texto mexeu, prá variar, com a cabeça dos seus leitores- entre os quais me incluo embora tenha andado afastada pois com endereço errado- mas só encontro perguntas, perguntas e perguntas. Nenhuma resposta!
    E entortando mais a cabeça!!!

    Beijo grande

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  5. Ailda Moreira dos Santos Says:

    Parabéns pela abordagem de um tema complexo e que você tratou com acertividade e leveza.

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  6. Carla Says:

    Muito bom seu texto, Marcelo. Parabéns.
    Como de costume, você pega pesado, mas nos obriga a pensar, acho que essa é sua função “básica” na sociedade, o que é de grande valia para quem o segue.
    Abraços,

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  7. Natalia Says:

    Olá Marcelo,
    Tudo bom com você?
    Andei me atualizando de MMs, adorei cada llinha do que tem escrito.
    Esse texto de hoje epecialmente. Já está mais do que na hora de eu criar vergonha na cara e me perguntar o que eu realmente quero, porque hoje em dia eu me critico muito e faço pouco.
    Muito bom mesmo
    Bjs
    Nat

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  8. Marisa Says:

    Ai ai, MM. Suas verdades são sempre bem vindas. Então segundo sua teoria jamais teremos tempos de paz? Risos.
    Adorei
    Bjs

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  9. Karen Neme Says:

    Putz, sabe que isso era exatamente o que eu precisava ouvir hoje?

    Só me falta serenidade para parar e repensar.

    E coragem para encarar a viagem pro mundo das coisas que tanto me incomodam.

    Thanks!

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  10. Fernanda Says:

    Acho que em cada período temos uma preocupação e, conforme o tempo passa, vemos que as responsabilidades de amanhã são maiores que as de ontem e que os medos de tempos atrás são menores que as vivências e as certezas que temos com a maturidade.

    Nada deve ser ignorado… tudo tem que ser vivido, intensamente, para que seja bem desgastado até ser resolvido.

    Mto bom!!

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