Absolutista

Coroa Absolutista

Certa vez, fui definido por uma terapeuta como um ser absolutista. Achei tão linda a palavra que fiquei me sentindo o todo poderoso, queria até colocar no meu cartão de visitas: Marcelo Mello, escritor e absolutista. Achei o título muito chique… mas…

Depois, com as explicações, fui percebendo que isso poderia não ser tão bom assim. Seres absolutistas pensam em tudo. Na maioria das vezes, pensam em tudo antes. Bom, não preciso dizer que sendo dessa maneira, jamais acreditei que estivesse fazendo uma escolha errada, seja ela qual tenha sido, em qualquer “parte” da vida. Como na prática a teoria é outra, pensar antes em tudo, pode até parecer que você antecipa os problemas, mas na verdade, você os cria, mesmo que eles jamais venham a existir. Traduzindo, perdemos tempo e energia com coisas que não existem e que talvez nem sequer venham a existir. 

Complicado isso dentro de nossa mente. Acreditar que se está pensando em tudo e de maneira correta, leva a você fazer as escolhas que tem certeza serem as melhores e como pensou em “tudo”, não dá nem uma brecha para que a dúvida, saudável muitas vezes, apareça. Ser absolutista não quer dizer que não vá errar. Ao contrário, quando erra, a frustração vem com uma força tão incrível que é bem complicado lidar com ela. Somos traídos pela mente, pois ser assim e pensar em tudo antecipadamente não quer dizer absolutamente nada. Com perdão do trocadilho.

Em resumo, odiei saber que sou assim e que por isso é que muitas das minhas escolhas foram erradas. Por outro lado, acertei outras tantas vezes e fique bem orgulhoso. O que isso significa? Que a cabeça da gente é mesmo esse turbilhão de dúvidas, escolhas, erros e acertos e, infelizmente, só descobrimos depois da atitude tomada. Pensar antecipadamente pode ajudar ao mesmo tempo em que atrapalha.

Bem, tenho que confessar mais uma coisa. Um ser absolutista dificilmente se surpreende. Apesar de que acontecem frustrações, elas se dão muito mais por serem constatações do que uma novidade que o pega de sopetão. Por outro lado, é horrível a gente saber qual presente vai ganhar, qual é o assassino misterioso do filme, etc, etc, etc. Parece que as coisas perdem a graça. Isso é ótimo quando prevemos uma coisa ruim, mas péssimo quando vemos um filme como o Sexto Sentido, por exemplo. Eu estraguei meu filme quando descobri antes da hora que o Bruce Willis estava morto. E sabem o pior? Não descobri porque sou um gênio, descobri porque, como penso, reparo e observo tudo, percebi que ele aparecia sempre com a mesma roupa. Falei: Ele está morto. Pronto, the end. Acabou a graça. Exemplo besta, eu sei, mas que ilustra como é ter uma vida sem surpresas. Bem triste.

No que diz respeito à pessoas, sendo desse jeito tentamos sempre imaginar a situação da outra pessoa em determinado projeto ou crise, sob a sua própria ótica. Como normalmente os absolutistas conhecem profundamente as pessoas com quem lida, fica fácil fazer essa transposição e se colocar no lugar do outro. Aí é mais fácil ainda prever os resultados. Em outras palavras, detectamos como uma pessoa age e vai agir. As pessoas não surpreendem mais. Mais triste ainda.

Mesmo assim, nos achando os todo-poderosos, somos grandes medrosos. Vou explicar por que. Na verdade, nós absolutistas temos tanto medo de nos ferir que tentamos desesperadamente pensar em tudo antes, assim, achamos, diminuímos o risco. Eu discuto com terapeutas. Acredito que todo mundo é absolutista. Duvido que exista uma só pessoa que não tente pensar em tudo antecipadamente quando está entrando em algum projeto. Claro que com as limitações que temos, meu “tudo” pode ser menos que seu “tudo”, se é que me entende.

Mas como estamos falando do Ego-Sistema, cada um de nós acredita que ao pensar em tudo, pensou realmente em tudo. Todos estamos errados. Até porque, pensar em tudo antes significa não aceitar uma das coisas mais interessantes que temos: Nossa capacidade de improvisar.

Claro que amanhã eu continuo a falar disso…

MM

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Publicado em Ego. 2 Comments »

2 Respostas to “Absolutista”

  1. Anônimo Says:

    Olá Marcelo Mello.
    Seus textos me deixam perplexas. Sutilidade passa longe de seus pensamentos, porém, é sempre bom alguém nos falar verdades.
    Parabéns.
    Abraços
    Janaína

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  2. Veralúcia Says:

    Adorei o Blog, o texto então nem se fala.
    Andei pesquisando sobre você e parece-me entendedor profundo do Ego. Muito bom.

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