Propriedade

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Quando a gente nasce, alguém é dono da gente. Os seres humanos, ditos inteligentes, não são capazes de sobreviver sem ajuda de outro ser humano. Para muitos, não só no início da vida, mas deixa isso para mais tarde. Por outro lado, no começo da vida seria um absurdo a gente ser bebê e ainda por cima ter que trocar nossas próprias fraldas. Isso é serviço de adultos. Ainda bem que alguém inventou essa regra, pois ficar sujo desde pequeno seria literalmente uma porcaria. Claro, não podemos nos esquecer de parabenizar também quem inventou a fralda.

Todo ser humano deveria ter um manual do proprietário, mas que deveria ser feito e usado somente pela própria pessoa, algo como sermos verdadeiramente dono de nós mesmos. Não é bem assim que acontece, pois quem inventa nossos manuais e nossas regras são nossos pais. Em outras palavras, dependendo da sociedade que você nasce terá um manual com regras diferentes.

Quando tinha 17 anos, resolvi que não queria ter um manual do proprietário e muito menos um dono. Passei então a escrever coisas num caderno, algo como um diário. Não sabia ao certo o que queria com aquilo, mas resolvi fazer assim mesmo. Hoje, já estou com 48 e somente agora, passado esse tempo todo é que percebi a importância de ter escrito esse diário.

Era na verdade um manual do proprietário escrito pelo proprietário de fato. Claro que tenho pai, na época tinha mãe, família, e também muitos amigos, afinal, sou uma “pessoa” comum. E por isso mesmo, meu pai, mãe e família sempre tentaram – e ainda tentam, sim, até hoje isso acontece, a família sempre tenta nos manipular – me fazer seguir o manual deles. Acho que você sabe do que estou falando.

Os pais tentam fazer a gente ser o que eles querem que a gente seja ou até mesmo seja o que eles não foram. A família palpita sem parar e o que mais fazem conosco é nos acusar de alguma coisa. Acusar de ter feito coisas erradas, diga-se de passagem.

Um dia me rebelei, pensei algo do tipo, deixem-me viver em paz, ou cuidem das suas próprias vidas. Mas não poderemos falar dessa maneira aberta, pois os seres humanos são na verdade bichinhos e quando a gente faz uma simples pergunta como, o que você tem com isso, parece que xingamos a mãe da pessoa. É só a verdade, pois ninguém tem nada a ver com nossa vida, mas falar assim ofende demais. Vai entender. O que querem? Que os deixemos conduzir toda nossa vida? Pior que é exatamente isso. 

Nossos pais, ou seja, donos da gente, normalmente fazem de tudo para cuidar e nos proteger de qualquer coisa que possa colocar em perigo nossa vida. Pensando bem, fazemos isso também quando somos pais. O sentimento de proteção é instintivo. Filhos vieram ao mundo para serem protegidos pelos pais. Até aí nenhuma novidade. Claro que ao atingimos uma certa idade, quando “nos damos por gente”, essa proteção mais atrapalha do que ajuda. Para um pai ou uma mãe, um filho jamais cresce. E claro, um filho bem criado é um filho que aprende todas as regras que o pai e a mãe acham certas. Mesmo sendo diferentes, os seres humanos tem uma tendência louca a acreditar que todos nós somos iguais. Como se existisse uma fórmula que servisse a todos.

Não dá para saber por que pensam assim, mas em todo caso, é assim e assim será por todo o sempre. Já imaginou se funcionasse dessa maneira simplista? Todos nós seriamos iguais, pensaríamos as mesmas coisas e provavelmente na terra só existiria uma única profissão. Todos se casariam com a primeira namorada ou namorado e a vida aqui seria a coisa mais morna do universo. Nem ETs viriam para cá. Afinal, para que abduzir um ser chato, não é mesmo?

Mas seguindo a teoria dos pais, é exatamente isso que eles tentam fazer, transformar os filhos em seres não pensantes e chatos. Liberdade de pensamentos, de expressão e de atitudes? Bom, isso não vai ter se quiser seguir o manual deles. Portanto, a palavra, ou melhor, o conceito de liberdade cai por terra. Claro que, como já disse, filhos precisam de cuidados e proteção por um certo tempo, mas como o poder entorpece, um pai sempre acha que o filho é dele e não do mundo. Por mais que alguns tentem dizer que criam seus filhos para o mundo, isso é mentira. Eles criam o filho segundo sua visão e conseqüentemente não querem permitir que seus filhos cometam os mesmos erros que cometeram, mesmo que esse suposto erro funcione como alguma coisa que possa gerar crescimento e amadurecimento nos filhos.

Como falei lá em cima, pior é quando os pais querem que seus filhos sejam exatamente iguais a eles, mas eliminando as frustrações e realizando os sonhos não alcançados. Só por isso já se pode notar que, se os filhos não cometerem os mesmos erros, já não serão iguais aos pais, mas que pai nesse mundo não tem orgulho de dizer que seu filho é igual a si, porém não tem os mesmos problemas. Ora, se não tem já não é igual.

MM

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Publicado em Ego. 1 Comment »

Uma resposta to “Propriedade”

  1. Danilo Says:

    ótimo!!!!!

    E ainda existem aquele pais que tem aquela velha mania de dizer “faça o que eu digo não faça o que eu faço”, na minha opnião é um falso moralismo… todas as pessoas tem direitos a escolhas…mesmo que estas escolhas nem sempre sejam as certas …porém como você disse ninguém se preocupa em saber se essa escolha causará algum crescimento futuro. É claro que sei que na verdade é simplesmente a preocupação de pais ..mas a vida não funciona assim na prática.
    Muitos dos filhos se tornam uns chatos e mornos e outros se “rebelam” no bom sentido..e tem sua própria vida e escolhas …eu prefiro esta opção!!!
    Até gosto de ser parecido em alguns aspectos com meus pais…porém, com a minha própria personalidade!!!

    Muito legal o texto Marcelo!
    Grande Abraço!! Muito bom o blog!!!

    Curtir


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